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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Parir e dar à luz

Por Thaís Nicoleti

Hoje vamos sair um pouco do tema “reforma ortográfica”, embora tenhamos de voltar a ele depois. É que muita gente ainda tem dúvida sobre o uso da expressão “dar à luz” e, por isso mesmo, o assunto merece algumas palavras.

“Parir” é o nome que se dá à ação de expulsar o feto do útero. Embora signifique apenas isso, o seu uso para referir-se a seres humanos é considerado rude para muitas pessoas, que o reservam para os momentos de raiva ou de destempero, quando soltam aquele conhecido palavrão…

Disso resulta que o termo, em seu sentido estrito, tem sido mais usado para animais (“A gata pariu três lindos filhotes”), ainda que não haja problema algum em usá-lo para mulheres (“Fulana não foi feita para parir”).

No sentido figurado, “parir” pode significar “dar por terminado um trabalho difícil” (“O escritor finalmente pariu seu novo romance”), situação em que não há sentido pejorativo. É comum, entretanto, o uso da palavra para exprimir crítica ou desaprovação em construções do tipo “O diretor pariu um projeto sem relevância alguma” ou “O governo pariu mais uma medida provisória”.

Na prática, quando se trata do nascimento de bebês, existe clara preferência pela locução “dar à luz”, uma expressão de caráter metafórico, em que a luz é a vida, a claridade, o mundo iluminado.

Note que a mãe não dá a luz para o filho. É bom que se diga que ocorre o inverso: a mãe dá o filho à luz. É por esse motivo que ocorre crase no “a” que antecede a palavra “luz”. Esta é o núcleo do objeto indireto do verbo “dar”, enquanto o bebê é o núcleo do objeto direto (aquilo que é dado).

É por esse motivo que não ocorre uma preposição “a” antes de “bebê”, “filho” etc. Note que muita gente entende que a expressão é “dar à luz” (com “a” craseado), mas continua usando a preposição “a” depois de “luz” (!). Essa é a confusão mais frequente, responsável por construções (equivocadas) do tipo “deu à luz a gêmeos”. Nada disso. A mulher “deu à luz gêmeos” – agora sim –, pois deu dois filhos gêmeos para a luz, para o mundo.

 

 

 

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