Parir e dar à luz

Hoje vamos sair um pouco do tema “reforma ortográfica”, embora tenhamos de voltar a ele depois. É que muita gente ainda tem dúvida sobre o uso da expressão “dar à luz” e, por isso mesmo, o assunto merece algumas palavras.

“Parir” é o nome que se dá à ação de expulsar o feto do útero. Embora signifique apenas isso, o seu uso para referir-se a seres humanos é considerado rude para muitas pessoas, que o reservam para os momentos de raiva ou de destempero, quando soltam aquele conhecido palavrão…

Disso resulta que o termo, em seu sentido estrito, tem sido mais usado para animais (“A gata pariu três lindos filhotes”), ainda que não haja problema algum em usá-lo para mulheres (“Fulana não foi feita para parir”).

No sentido figurado, “parir” pode significar “dar por terminado um trabalho difícil” (“O escritor finalmente pariu seu novo romance”), situação em que não há sentido pejorativo. É comum, entretanto, o uso da palavra para exprimir crítica ou desaprovação em construções do tipo “O diretor pariu um projeto sem relevância alguma” ou “O governo pariu mais uma medida provisória”.

Na prática, quando se trata do nascimento de bebês, existe clara preferência pela locução “dar à luz”, uma expressão de caráter metafórico, em que a luz é a vida, a claridade, o mundo iluminado.

Note que a mãe não dá a luz para o filho. É bom que se diga que ocorre o inverso: a mãe dá o filho à luz. É por esse motivo que ocorre crase no “a” que antecede a palavra “luz”. Esta é o núcleo do objeto indireto do verbo “dar”, enquanto o bebê é o núcleo do objeto direto (aquilo que é dado).

É por esse motivo que não ocorre uma preposição “a” antes de “bebê”, “filho” etc. Note que muita gente entende que a expressão é “dar à luz” (com “a” craseado), mas continua usando a preposição “a” depois de “luz” (!). Essa é a confusão mais frequente, responsável por construções (equivocadas) do tipo “deu à luz a gêmeos”. Nada disso. A mulher “deu à luz gêmeos” – agora sim –, pois deu dois filhos gêmeos para a luz, para o mundo.

 

 

 

Comentários

  1. Muito claro e esclarecedor o artigo. Deu luz àqueles que apenas repetiam o ‘eufemismo’ sem avaliar seu significante. Somos ‘pródigos’ em tentar diferenciar-nos dos outros animais, vg óvulo, que nada mais é que ovo, em última instância biológica!

    1. Na verdade, Fábio, óvulo é óvulo mesmo. Ovo é a designação biológica que se dá ao óvulo fecundado.
      Por exemplo, quando compramos ovo de galinha de granja, ele não foi fecundado, portanto, compramos óvulos de galinha; caso compremos os chamados ovos caipiras, provavelmente fecundados por algum galo, aí sim estaremos comprando ovos.

  2. Olá, Thaís. Sou fã do seu trabalho. Todavia, gostaria de questionar: logo no primeiro parágrafo, no trecho “… sobre o uso da expressão “dar à luz” e, por isso mesmo, o assunto merece…”, não deveria haver uma vírgula antes do “e”, considerando que os sujeitos das orações são diferentes? Obrigado.

    1. Olá, Luiz, tudo bem? A vírgula antes do “e” deve ser usada com parcimônia. Havendo sujeitos diferentes, ela é possível, mas não obrigatória. Creio que você esteja dando uma ótima sugestão de tema para um futuro “post”. Vou anotar e, em breve, tratarei disso com mais profundidade, está bem? Abraços, Thaís.

  3. O interessante é que sobre os cognatos “parto”, “parturiente”, “parteiro” não incide, aplicados ao ser humano, a conotação negativa que incide sobre “parir”. Todos dizemos naturalmente e sem nenhum constrangimento que o parto foi bem sucedido, que a parturiente está passando bem, que na zona rural do país ainda existem parteiras.

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