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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Eu e mim – outra vez

Por Thaís Nicoleti

Eu, mim

Uma de nossas leitoras pergunta se estão corretas as seguintes frases:

1. “Para eu ficar distante de você é insuportável.”

2. “Para eu viver no Rio de Janeiro é questão de coragem”.

Resposta rápida: estão erradas segundo a norma culta!

Por quê?

Sei que é meio chato usar a nomenclatura gramatical, mas, para entender a questão, você terá de saber, pelo menos, que “eu” é um pronome pessoal do caso reto e que “mim” é um pronome pessoal do caso oblíquo.  Caso reto e caso oblíquo. Será que você se lembra de ter estudado isso?

Os pronomes pessoais do caso reto são estes: eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas. Os do caso oblíquo subdividem-se em átonos (me, te, se, nos , vos, o, a, os, as, lhe, lhes) e tônicos (mim, ti, si, ele, ela, nós, vós, eles, elas).  Os átonos, quando estão depois dos verbos, prendem-se a eles por meio de hífen (faça-me); os tônicos prendem-se aos verbos por meio de preposições (faça por mim, traga para mim, vá sem mim etc.).

Existe uma diferença básica entre retos e oblíquos: os retos exercem a função de sujeito das orações, e os oblíquos são empregados na função de complemento.

Sujeito e complemento são termos da análise sintática. “Sujeito” é aquilo ou aquele de quem se fala (é errado dizer que o sujeito é quem pratica a ação, pois nem sempre isso é verdade). Os complementos são os chamados objetos (direto e indireto).

Veja um período bem simples:

João viu Maria.

João é o sujeito,  Maria é o complemento do verbo. Se fôssemos substituir João e Maria por pronomes, João, sendo sujeito, assumiria a forma de um pronome pessoal do caso reto (ele) e Maria, sendo complemento, assumiria a forma de um pronome pessoal do caso oblíquo (a). Assim: Ele viu-a/ Ele a viu.

Muito bem. Você relembrou a diferença entre caso reto e caso oblíquo. O que falta agora é entender por que o pronome do caso reto (eu) não cabe nas frases enviadas por nossa leitora.  Veja novamente essas frases:

1. “Para eu ficar distante de você é insuportável.”

2. “Para eu viver no Rio de Janeiro é questão de coragem”.

Na primeira delas (1), o pronome exerce claramente a função de complemento nominal de “insuportável”. Complemento nominal , outro termo da análise sintática, é um termo que completa certos nomes (substantivos, adjetivos, advérbios) em vez de completar verbos. Esse tipo de complemento é introduzido por alguma preposição (para, de, em etc.).

Na frase em questão, “para mim” completa o adjetivo “insuportável”. A pessoa quer dizer que ficar distante da outra é insuportável para ela.  Note que seria mais comum usar o “para mim”no fim da frase: “Ficar distante de você é insuportável para mim”. É insuportável “para mim”, mas poderia não sê-lo para outra pessoa.

O que fez a leitora foi usar o complemento de “insuportável” no início do período, ou seja, ela inverteu a ordem usual dos termos, o que produz um efeito de ênfase, mas não muda a relação entre as palavras.  Ela deveria, portanto, ter escrito o seguinte:

Para mim, ficar distante de você é insuportável.

O pronome “eu” não cabe nessa construção, pois não é sujeito do verbo “ficar”. A propósito, “ficar” não tem sujeito. Trata-se de um infinitivo impessoal. “Impessoal” quer dizer “sem sujeito”, certo?

Opinião

Na segunda frase (2), “viver no Rio é uma questão de coragem” é a opinião do emissor da mensagem. É como se a pessoa dissesse algo como “Na minha opinião, viver no Rio de Janeiro é uma questão de coragem”. Esse “para mim” é um tipo de objeto indireto (é, portanto, um complemento). “Para mim” = “Na minha opinião” (nessa situação, nem pensar em usar “eu”).

Para usar uma construção como “para eu…”, será necessário que haja um verbo no infinitivo do qual esse pronome “eu” seja o sujeito. Assim: para eu fazer, para eu comer, para eu entender, para eu ouvir etc.

Por exemplo:

“Fale mais alto para eu ouvir a sua voz.” [= para que eu ouça a sua voz]

Na dúvida, transforme a oração infinitiva (para eu ouvir) em uma oração com verbo conjugado (para que eu ouça). Ao fazer essa transformação, você percebe mais claramente que o pronome é sujeito do verbo. Sendo sujeito, é do caso reto, ou seja, “eu”, “tu” etc.

A forma “eu” (bem como os demais pronomes retos) só se justifica na condição de sujeito do verbo que vem depois dela.

 

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