Eu e mim – outra vez

Eu, mim

Uma de nossas leitoras pergunta se estão corretas as seguintes frases:

1. “Para eu ficar distante de você é insuportável.”

2. “Para eu viver no Rio de Janeiro é questão de coragem”.

Resposta rápida: estão erradas segundo a norma culta!

Por quê?

Sei que é meio chato usar a nomenclatura gramatical, mas, para entender a questão, você terá de saber, pelo menos, que “eu” é um pronome pessoal do caso reto e que “mim” é um pronome pessoal do caso oblíquo.  Caso reto e caso oblíquo. Será que você se lembra de ter estudado isso?

Os pronomes pessoais do caso reto são estes: eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas. Os do caso oblíquo subdividem-se em átonos (me, te, se, nos , vos, o, a, os, as, lhe, lhes) e tônicos (mim, ti, si, ele, ela, nós, vós, eles, elas).  Os átonos, quando estão depois dos verbos, prendem-se a eles por meio de hífen (faça-me); os tônicos prendem-se aos verbos por meio de preposições (faça por mim, traga para mim, vá sem mim etc.).

Existe uma diferença básica entre retos e oblíquos: os retos exercem a função de sujeito das orações, e os oblíquos são empregados na função de complemento.

Sujeito e complemento são termos da análise sintática. “Sujeito” é aquilo ou aquele de quem se fala (é errado dizer que o sujeito é quem pratica a ação, pois nem sempre isso é verdade). Os complementos são os chamados objetos (direto e indireto).

Veja um período bem simples:

João viu Maria.

João é o sujeito,  Maria é o complemento do verbo. Se fôssemos substituir João e Maria por pronomes, João, sendo sujeito, assumiria a forma de um pronome pessoal do caso reto (ele) e Maria, sendo complemento, assumiria a forma de um pronome pessoal do caso oblíquo (a). Assim: Ele viu-a/ Ele a viu.

Muito bem. Você relembrou a diferença entre caso reto e caso oblíquo. O que falta agora é entender por que o pronome do caso reto (eu) não cabe nas frases enviadas por nossa leitora.  Veja novamente essas frases:

1. “Para eu ficar distante de você é insuportável.”

2. “Para eu viver no Rio de Janeiro é questão de coragem”.

Na primeira delas (1), o pronome exerce claramente a função de complemento nominal de “insuportável”. Complemento nominal , outro termo da análise sintática, é um termo que completa certos nomes (substantivos, adjetivos, advérbios) em vez de completar verbos. Esse tipo de complemento é introduzido por alguma preposição (para, de, em etc.).

Na frase em questão, “para mim” completa o adjetivo “insuportável”. A pessoa quer dizer que ficar distante da outra é insuportável para ela.  Note que seria mais comum usar o “para mim”no fim da frase: “Ficar distante de você é insuportável para mim”. É insuportável “para mim”, mas poderia não sê-lo para outra pessoa.

O que fez a leitora foi usar o complemento de “insuportável” no início do período, ou seja, ela inverteu a ordem usual dos termos, o que produz um efeito de ênfase, mas não muda a relação entre as palavras.  Ela deveria, portanto, ter escrito o seguinte:

Para mim, ficar distante de você é insuportável.

O pronome “eu” não cabe nessa construção, pois não é sujeito do verbo “ficar”. A propósito, “ficar” não tem sujeito. Trata-se de um infinitivo impessoal. “Impessoal” quer dizer “sem sujeito”, certo?

Opinião

Na segunda frase (2), “viver no Rio é uma questão de coragem” é a opinião do emissor da mensagem. É como se a pessoa dissesse algo como “Na minha opinião, viver no Rio de Janeiro é uma questão de coragem”. Esse “para mim” é um tipo de objeto indireto (é, portanto, um complemento). “Para mim” = “Na minha opinião” (nessa situação, nem pensar em usar “eu”).

Para usar uma construção como “para eu…”, será necessário que haja um verbo no infinitivo do qual esse pronome “eu” seja o sujeito. Assim: para eu fazer, para eu comer, para eu entender, para eu ouvir etc.

Por exemplo:

“Fale mais alto para eu ouvir a sua voz.” [= para que eu ouça a sua voz]

Na dúvida, transforme a oração infinitiva (para eu ouvir) em uma oração com verbo conjugado (para que eu ouça). Ao fazer essa transformação, você percebe mais claramente que o pronome é sujeito do verbo. Sendo sujeito, é do caso reto, ou seja, “eu”, “tu” etc.

A forma “eu” (bem como os demais pronomes retos) só se justifica na condição de sujeito do verbo que vem depois dela.

 

Comentários

  1. Thaís, me vejo obrigado a concordar com o senhor antonio clementino dos santos. Eu amo estar sempre ‘em dia’, com a nossa língua, mas a tua explicação poderia sim, ser mais objetiva e menos didática, mais direta e não tão rica em detalhes que – ao contrário da maioria, como você mesma diz – me fez perder o fio da meada… Obrigado.

    1. Leia com atenção. O pronome do caso reto (eu) é sujeito de um verbo no infinitivo; o pronome oblíquo (mim) é complemento. É por isso que a construção “para mim fazer” é considerada incorreta à luz da norma culta do idioma. Nessa construção, o verbo “fazer” tem um sujeito representado pela primeira pessoa, que deveria, por isso mesmo, ser o pronome do caso reto (eu), ou seja, “para eu fazer”. Se o complemento aparecer no início e, coincidentemente, antes do infinitivo, continuará sendo o pronome “mim”: Para mim, viver no Rio de Janeiro é bom. Sinceramente, espero que tenha entendido e obrigada por acessar a página.

  2. Prezada Thaís:

    O Luís comentou “at 12:41 pm” que “…Para mim fazer, definitivamente, fere os meus ouvidos!”.

    E eu comentei: “Luís, nem sempre ‘para mim fazer’ vai ferir os seus ouvidos (epa, lembrei do Noel Rosa, cujos ouvidos eram feridos pelo apito da fábrica de tecidos…), basta uma vírgula e fica correto. Ou seja, “para mim, fazer este comentário não é errado”.

    Certo?

    Obrigado pelos seus ensinamentos.

    Forte abraço,

    Leo Ponzoni/Rio

  3. Gostei muito da explicação da Profa. Thaís, pois me esclareceu dúvidas de quando usar “eu” e “mim”. Porém, creio eu, quando outros leitores criticam a forma com a qual foi feita a explicação, a dificuldade de compreensão não está no exposto e sim na base da língua portuguesa que cada um guarda consigo. Infelizmente os conteúdos programáticos escolares não abrangem profundamente o estudo da língua, falada e escrita, como deveria fazê-lo. Tampouco, a maioria das pessoas no decorrer de sua formação, se preocupa em falar ou escrever o português adequadamente, já que tem à sua disposição, meios de fazê-lo automaticamente, sem esforço de raciocínio.

  4. Profa. Thaís, a sua explicação foi muito boa e esclarecedora. Agora, é impressionante a quantidade de pessoas que não sabem interpretar um texto. Talvez esteja aí o problema de acharem que sua explicação tenha sido complicada. Noções básicas de gramática (tais como os tipos de pronomes) não deveriam ser um problema para quem, no mínimo, sabe ler. Infelizmente é a nossa realidade. Abraços.

  5. Sou apaixonada pelo assunto e entendi tudo. Anotei as partes que me pareciam um pouco complicadas. Reli todas. Acredito que foi, sim, esclarecedor
    e quem trabalha com a língua portuguesa pode usar o artigo em suas aulas. Vou aproveitar tudo.

  6. Em geral esclarecimentos sobre a nossa língua não são simples. O texto está perfeito. Certamente quem não entendeu está acostumado a ler coisas mais curtas, no estilo “dicas”. Para ler e entender é preciso o hábito e superar a preguiça. Nunca comento nada na internet, mas achei os comentários bastante esquisitos e a autora paciente de enfrentá-los. Sem dúvida, contrariando mais um lá em cima, deve ser uma excelente professora!

  7. Thais, ótimo… a polêmica revela o “x” do problema: é estrutural em todos os sentidos, inclusive no vernáculo. Sucesso e muita paciência. Continue, guerreira, na luta pela ilustração da nação tupiniquim. Aceite as críticas, não são maldosas, apenas expressão do dano, que muitos sofreram, na cultura ” dos que fingem que ensinam e os demais precisam fingir que aprendem”. Aí está o resultado! Uma calmaria poderia ter segurado Cabral longe daqui, e um vento poderia trazer outra língua para cá. Agora é tarde!!!

  8. Sou Engº de Petróleo mas sempre busco manter-me atualizado sobre a nossa língua. Considerei bastante interessante a explicação. A ideia que fica é a seguinte: O pronome pessoal do caso reto (EU) sempre deve ser sujeito e nunca complemento (seja verbal ou nominal). Seria curioso comentar também a respeito da VOZ PASSIVA por conta da questão mencionada a respeito do sujeito nem sempre ser o atuante da sentença. Finalmente, quando a Thaís ressaltou que o verbo “ficar” não possui sujeito, para mim, não ficou claro. Lembrei-me dos verbos de ligação >> SER, ESTAR, “FICAR, PERMANECER, CONTINUAR E TORNAR-SE os quais têm a função de “ligar” o SUJEITO ao seu predicativo.

    1. “Ficar” nessa frase não tem sujeito, não sempre. Vale para qualquer um. Por exemplo, navegar é preciso, viver não é preciso — é a mesma coisa, ou seja, nessa estrutura (verbo no infinitivo) é que não tem sujeito. Abraço

  9. Thais,
    sou professora também e adoro estudar a nossa língua. Você teria como explicar por que em português devemos dizer:Este trabalho não é para eu fazer, quando em outras línguas usam-se os pronomes objetos?No inglês dizemos: This work is not for me to do; em francês: Ce travail n’est pas pour moi à faire; em espanhol: Este trabajo no es para mi hacer;em italiano:Questo lavoro non è da fare per me. Obrigada pela sua atenção.

    1. Lia, realmente, em português, o átono não vem depois de preposição. Ficamos, nesse processo evolutivo do latim para cá, com o sujeito de infinitivo átono apenas com os transitivos diretos causativos e sensitivos, em estruturas do tipo Mandou-o fazer (e as pessoas tendem a dizer “mandou ele fazer”). Grande abraço:)

  10. Anna Paula, Avile e Cristine: eu discordo de vocês. A gramática da Língua Portuguesa, é naturalmente complexa. E por isso mesmo é rica. Destarte, não podemos “cobrar” da blogueira uma simplificação na resposta, qualquer que seja. Não foi uma reportagem, Sra. Anna Paula. Foi uma explicação, na minha opinião até bem objetiva. É como explicar um processo de fotossíntese, ou de digestão, ou de sinapse nervosa.. O problema, na minha opinião, são os “encurtamentos” sistemática e historicamente feitos na educação no nosso Brasilzão de Terceiro Mundo. Pronto: fiz mais uma “reportagem”. Ósculos e amplexos.

  11. Professora Thaís , a Senhora é a heroína do ensino da língua portuguesa . A Sra. poderia ver aquele assunto do verbo “pegar” que vem com “pégo” , e buscar “em busca de” ou “à busca de” ?
    Um abraço . São Carlos , 15/02/2013

  12. As explicações foram claras, límpidas e transparentes. Para os que possuem dislexia ou precisam de uma aula de reforço começando das bases, manda email pra eu, digo, pra mim, que penso numa forma baratinha de ajudar.

  13. O saber da professora THAÍS encante! E o bom disso tudo é que ela vem distribuindo sua imensa cultura a milhões de jovens e adultos brasileiros desde de o tampo do vestibula. Professora THAÍS, és eterna!

  14. GOSTARIA DE SABER QUAL É A RESPOSTA CORRETA DOS VERBOS E SEUS COMPLEMENTOS DA FRASE
    ” NÃO TE VEJO, NEM TE ESCUTO”
    ( )INTRANSITIVO ( ) TRANSITIVO DIRETO

    ” O PÁSSARO CANTA A ULTIMA ESPERANÇA”
    ( ) INTRANSITIVO ( ) TRANSITIVO DIRETO

    1. Sueli, os três verbos em questão (ver, escutar e cantar) são transitivos diretos nessas frases. O pronome “te” é objeto direto de “vejo” e de “escuto”. “A última esperança” é o objeto direto de “canta”. Abraços, THaís 🙂

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