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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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Pronomes pessoais: registro oral e registro formal

Por Thaís Nicoleti

Não é de hoje que os falantes do português, pelo menos os do Brasil, vêm usando o pronome pessoal do caso reto  na posição de objeto direto. Estamos falando de construções que ouvimos diariamente, como “Eu chamei ele”, “Fulano encontrou ela na festa”, “O motorista do outro carro xingou ela”, todas muito familiares aos nossos ouvidos no dia a dia.portugues em dia

É interessante observar que esse uso é generalizado mesmo entre falantes escolarizados, desde que estejam operando em um registro informal da língua. O emprego dos pronomes átonos nessas frases (“Eu o chamei”, “Fulano encontrou-a na festa”, “O motorista do outro carro xingou-a”) é incomum na fala.  Isso é fato, mas não é motivo para negligenciarmos o seu uso nas comunicações formais – pelo menos, não ainda.

Vale notar que esse “desvio” da norma culta não ocorre igualmente com os pronomes retos das outras pessoas gramaticais. Não se ouve, por exemplo, algo como “ele viu eu” entre aqueles mesmos falantes que não hesitam em dizer “ele viu ela”. Na primeira pessoa do singular, a distinção entre o pronome reto (de sujeito) e o oblíquo (de objeto) continua intacta (“Ele me viu”, “Eu vi alguém”).

O pronome átono “te”, por sua vez, embora seja da segunda pessoa do singular, é largamente empregado por falantes que não fazem uso do pronome “tu” (pronome do caso reto de segunda pessoa).Na prática, os falantes misturam as pessoas gramaticais, realizando construções do tipo “Você me pediu ajuda e eu te disse o que fazer”. “Você”, pronome de tratamento, é da terceira pessoa e “te” é da segunda.

Nas aulas de português, é comum que se trate tudo isso como “erros” a corrigir, muitas vezes reduzindo uma questão complexa à determinação de uma forma certa em contraposição à(s) errada(s). Quando fazemos isso, deixamos de observar o que a realidade teima em nos mostrar: o dinamismo da língua.

Nas universidades, os linguistas elegem a língua como seu objeto de estudo e buscam descrevê-la exatamente como ela se apresenta, “ao natural”. É por isso que, nesse nível de estudo, nunca se fala em erro e acerto.

De fato, não há como controlar o modo como as pessoas falam (é por isso que projetos de criar leis antiestrangeirismos nunca são levados a sério).  Quando alguém se põe a escrever, porém, a história é outra. O texto redigido não é espontâneo, mas fruto de reflexão. É por isso que, nesse tipo de registro, é esperado que as pessoas façam uso da norma-padrão, mais adequada à expressão concisa, clara e precisa das ideias.

Existem escritores que optam por levar o registro oral para as páginas de livros – e o fazem deliberadamente, obtendo com isso grande expressividade.

A linguagem que se pode (e se deve) regular é a dos textos informativos, objetivos, de caráter formal. Dessa forma, a mesma pessoa que  disse ao colega de trabalho que “o motorista xingou ela” poderá redigir uma carta a seu superior hierárquico na empresa empregando os pronomes átonos na posição de objeto direto (“Os documentos foram enviados ao setor jurídico. Depois de analisá-los, a equipe os devolverá ao senhor”).

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