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Produzido por Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL, blog discute questões e dá dicas para quem tem dúvidas no emprego da chamada norma culta.

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A caricatura do feminismo: desserviço à causa das mulheres

Por Thaís Nicoleti

Neste Dia Internacional da Mulher, aproveito o ensejo para convidar o leitor a me acompanhar numa reflexão baseada em textos sobre o feminismo que recentemente desencadearam acalorada discussão na internet.temalivre

A polêmica foi deflagrada por um artigo da atriz Fernanda Torres no blog #AgoraÉQueSãoElas, intulado “Mulher”, que acabou sendo alvo de uma daquelas saraivadas de críticas de internautas. Os leitores (ou boa parte deles) não perdoaram a  complacência da atriz com o machismo, que ela dizia “não incomodá-la”.

O fato motivou uma retratação feita por ela por meio de um segundo texto, por meio do qual pede desculpas aos seus críticos e justifica sua posição inicial como fruto de uma experiência pessoal “decerto, de exceção”.

As críticas, com as quais a atriz diz ter concordado, atribuíram sua imunidade aos tentáculos do machismo (ou a sua falta de percepção) ao fato de ser ela uma mulher branca de classe média. “É o que sou”, sintetiza.

Pouco tempo depois, a apresentadora de TV Mônica Waldvogel, na seção Tendências/Debates, da Folha, publicou texto em que se solidarizava à posição inicial de Fernanda Torres ou, pelo menos, ao direito que a atriz tinha de expressar-se livremente sem ser objeto das violentas críticas.

Para tanto, mencionou uma experiência própria de confronto no ciberespaço com cicloativistas, que a agrediram verbalmente por discordarem de suas opiniões ponderadas, emitidas em seu programa na televisão.

Continua seu raciocínio, mostrando que “ativistas” tomam conta de determinadas causas e cerceiam, com seu radicalismo, o direito dos outros à opinião contrária.

Dá a entender que o mea-culpa de Fernanda Torres foi “forçado” pela ameaça de linchamento nas redes sociais – afinal, pessoas públicas não querem ter sua imagem manchada. Uma mulher inteligente, como é a atriz, não poderia antagonizar-se à causa das mulheres…

Waldvogel, entretanto, não parece acreditar na sinceridade da retratação da atriz, pois, ironicamente, sugere que isso só seria possível se Torres tivesse “experimentado uma epifania” e “sentido sobre os ombros a responsabilidade sobre todas as ignomínias da história” ou se tivesse ficado “convencida de que contribuiu para as abominações causadas pelo racismo e pelo machismo”, dado que foram essas as “acusações” que recebera dos seus algozes.

Há dois implícitos (pelo menos) nesse raciocínio. O primeiro deles é que ninguém muda de opinião (ou, se muda, não o faz legitimamente); o segundo é que, para que a atriz revisse sua posição inicial (na hipótese de isso ser possível), ela teria de sentir-se responsável por todas as ignomínias da história etc., o que é um exagero.

A apresentadora, conquanto faça uma crítica pertinente à agressividade de certos internautas (não são todos!), desloca a questão do feminismo para a questão do direito à livre opinião.

É bom que se diga que todos os que dirigiram vitupérios à atriz certamente se valeram desse mesmo direito à livre opinião. O modo de expressá-la pode ser condenável, mas não o seu direito de expressá-la.

É fato que, no ambiente da internet, as chamadas “pessoas públicas” são alvo certo de ataques. Pode-se aventar a hipótese de que isso ocorra por serem elas os tradicionais “formadores de opinião”, aqueles a quem a mídia confere espaço, portanto voz e credibilidade.

As redes sociais estenderam o direito à voz a praticamente todas as pessoas. Qualquer um pode dizer o que quiser, como quiser. É claro que as regras de convívio que existem no mundo real deveriam existir também no virtual, sob pena de a revolucionária plataforma de debates não servir ao avanço de nenhum deles.

Talvez a iconoclastia reinante nesse universo seja uma etapa pela qual tenhamos de passar na disputa por espaço de opinião. Hoje qualquer um pode conseguir milhares de seguidores, seja por suas ideias, seja por seu poder de sedução etc. Não precisamos, portanto, transformar o espaço virtual num ringue.

O fato, no entanto, é que aquilo que poderia ser um debate sobre o feminismo virou discussão sobre liberdade de opinião – esta uma questão talvez menos complexa (pelo menos, no nível em que está posta), pois, em sã consciência, quem seria contrário a esse direito? O debate que deveria estar em pauta deslocou-se para o velho porão da invisibilidade.

Ao atacar ativistas e militantes, de quaisquer causas, como se essas pessoas tivessem suas ideias distorcidas pela ação política (?), Waldvogel mais uma vez contribui para deslocar o debate, tratando-o como expressão do fanatismo de certos grupos. Seu argumento foi o da recusa a ver em cada homem um estuprador, um “repugnante abusador” ou um “assediador abjeto”.

O exagero da imagem (mais uma vez, a autora lança mão desse recurso) apenas reforça a caricatura das feministas – as mulheres “mal-amadas”, “mal-humoradas”, que “não gostam de homem” – que serve, como uma luva, aos propósitos machistas. O feminismo é caricato, mas o machismo não o é. Será antes uma força insidiosa que perpassa gerações, transmitida na educação da prole e nas conversas de botequim.

Dizer que “homem é assim mesmo”, que “homem gosta disso ou daquilo”, além de ser uma tolice útil para animar comédias rasas de teatro ou esquetes de TV e para dar assunto a revistas de futilidades, pejorativamente chamadas de “femininas”, é mera aceitação de certos comportamentos como se fossem “naturais” e, por isso mesmo, imutáveis.

Ser mulher branca de classe média não nos livra do machismo. Essa causa não é só “das outras”, das negras e pobres. A causa é de todos, é de cada um, inclusive dos homens esclarecidos, que existem (e talvez não sejam aqueles que só “gostam de mulher” quando abrem as páginas de uma revista… “masculina”). Gostar de mulher é mais que isso – gostar não apenas do objeto mulher mas também do sujeito mulher.

O debate não deve ser deslocado. Ele precisa aprofundar-se. Nem as críticas agressivas e exageradas nem o deslocamento da questão contribuem para o seu necessário avanço.

 

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