A caricatura do feminismo: desserviço à causa das mulheres

Neste Dia Internacional da Mulher, aproveito o ensejo para convidar o leitor a me acompanhar numa reflexão baseada em textos sobre o feminismo que recentemente desencadearam acalorada discussão na internet.temalivre

A polêmica foi deflagrada por um artigo da atriz Fernanda Torres no blog #AgoraÉQueSãoElas, intulado “Mulher”, que acabou sendo alvo de uma daquelas saraivadas de críticas de internautas. Os leitores (ou boa parte deles) não perdoaram a  complacência da atriz com o machismo, que ela dizia “não incomodá-la”.

O fato motivou uma retratação feita por ela por meio de um segundo texto, por meio do qual pede desculpas aos seus críticos e justifica sua posição inicial como fruto de uma experiência pessoal “decerto, de exceção”.

As críticas, com as quais a atriz diz ter concordado, atribuíram sua imunidade aos tentáculos do machismo (ou a sua falta de percepção) ao fato de ser ela uma mulher branca de classe média. “É o que sou”, sintetiza.

Pouco tempo depois, a apresentadora de TV Mônica Waldvogel, na seção Tendências/Debates, da Folha, publicou texto em que se solidarizava à posição inicial de Fernanda Torres ou, pelo menos, ao direito que a atriz tinha de expressar-se livremente sem ser objeto das violentas críticas.

Para tanto, mencionou uma experiência própria de confronto no ciberespaço com cicloativistas, que a agrediram verbalmente por discordarem de suas opiniões ponderadas, emitidas em seu programa na televisão.

Continua seu raciocínio, mostrando que “ativistas” tomam conta de determinadas causas e cerceiam, com seu radicalismo, o direito dos outros à opinião contrária.

Dá a entender que o mea-culpa de Fernanda Torres foi “forçado” pela ameaça de linchamento nas redes sociais – afinal, pessoas públicas não querem ter sua imagem manchada. Uma mulher inteligente, como é a atriz, não poderia antagonizar-se à causa das mulheres…

Waldvogel, entretanto, não parece acreditar na sinceridade da retratação da atriz, pois, ironicamente, sugere que isso só seria possível se Torres tivesse “experimentado uma epifania” e “sentido sobre os ombros a responsabilidade sobre todas as ignomínias da história” ou se tivesse ficado “convencida de que contribuiu para as abominações causadas pelo racismo e pelo machismo”, dado que foram essas as “acusações” que recebera dos seus algozes.

Há dois implícitos (pelo menos) nesse raciocínio. O primeiro deles é que ninguém muda de opinião (ou, se muda, não o faz legitimamente); o segundo é que, para que a atriz revisse sua posição inicial (na hipótese de isso ser possível), ela teria de sentir-se responsável por todas as ignomínias da história etc., o que é um exagero.

A apresentadora, conquanto faça uma crítica pertinente à agressividade de certos internautas (não são todos!), desloca a questão do feminismo para a questão do direito à livre opinião.

É bom que se diga que todos os que dirigiram vitupérios à atriz certamente se valeram desse mesmo direito à livre opinião. O modo de expressá-la pode ser condenável, mas não o seu direito de expressá-la.

É fato que, no ambiente da internet, as chamadas “pessoas públicas” são alvo certo de ataques. Pode-se aventar a hipótese de que isso ocorra por serem elas os tradicionais “formadores de opinião”, aqueles a quem a mídia confere espaço, portanto voz e credibilidade.

As redes sociais estenderam o direito à voz a praticamente todas as pessoas. Qualquer um pode dizer o que quiser, como quiser. É claro que as regras de convívio que existem no mundo real deveriam existir também no virtual, sob pena de a revolucionária plataforma de debates não servir ao avanço de nenhum deles.

Talvez a iconoclastia reinante nesse universo seja uma etapa pela qual tenhamos de passar na disputa por espaço de opinião. Hoje qualquer um pode conseguir milhares de seguidores, seja por suas ideias, seja por seu poder de sedução etc. Não precisamos, portanto, transformar o espaço virtual num ringue.

O fato, no entanto, é que aquilo que poderia ser um debate sobre o feminismo virou discussão sobre liberdade de opinião – esta uma questão talvez menos complexa (pelo menos, no nível em que está posta), pois, em sã consciência, quem seria contrário a esse direito? O debate que deveria estar em pauta deslocou-se para o velho porão da invisibilidade.

Ao atacar ativistas e militantes, de quaisquer causas, como se essas pessoas tivessem suas ideias distorcidas pela ação política (?), Waldvogel mais uma vez contribui para deslocar o debate, tratando-o como expressão do fanatismo de certos grupos. Seu argumento foi o da recusa a ver em cada homem um estuprador, um “repugnante abusador” ou um “assediador abjeto”.

O exagero da imagem (mais uma vez, a autora lança mão desse recurso) apenas reforça a caricatura das feministas – as mulheres “mal-amadas”, “mal-humoradas”, que “não gostam de homem” – que serve, como uma luva, aos propósitos machistas. O feminismo é caricato, mas o machismo não o é. Será antes uma força insidiosa que perpassa gerações, transmitida na educação da prole e nas conversas de botequim.

Dizer que “homem é assim mesmo”, que “homem gosta disso ou daquilo”, além de ser uma tolice útil para animar comédias rasas de teatro ou esquetes de TV e para dar assunto a revistas de futilidades, pejorativamente chamadas de “femininas”, é mera aceitação de certos comportamentos como se fossem “naturais” e, por isso mesmo, imutáveis.

Ser mulher branca de classe média não nos livra do machismo. Essa causa não é só “das outras”, das negras e pobres. A causa é de todos, é de cada um, inclusive dos homens esclarecidos, que existem (e talvez não sejam aqueles que só “gostam de mulher” quando abrem as páginas de uma revista… “masculina”). Gostar de mulher é mais que isso – gostar não apenas do objeto mulher mas também do sujeito mulher.

O debate não deve ser deslocado. Ele precisa aprofundar-se. Nem as críticas agressivas e exageradas nem o deslocamento da questão contribuem para o seu necessário avanço.

 

Comentários

  1. Estou impressionada com sua lucidez. Nunca comento posts mas desta vez não resisti. Eu sempre digo isso que a internet acabou com os pseudos formadores de opinião, em que só eles possuíam espaço para falar. Aí, fica fácil, não existe o contraditório e se existe não é considerado. A internet acabou com o monopólio da opinião. Não li a Monica por isso não vou comentar. Li a Fernanda e achei muito legal o que ela fez, admitir que se equivocou. Lembro que não é um problema só de negras pobres, as ricas e classe média brancas tem vergonha de ir na delegacia. Acabam dizendo que escorregaram no banheiro. O caso mais recente é do candidato a Prefeito do Rio, apoiado pelo Eduardo Paes, que virou caso de polícia por espancar a mulher. Ninguém está livre do machismo. O machismo é uma doença social que atinge todas as classes sociais, todas as raças e todos os países.

  2. Feminismo tem tido problema com liberdade de expressão já faz um bom tempo. Acompanho a situação do feminismo pelo youtube com canais que discutem a situação política e ideológica dos Estados Unidos, Reino Unido e Inglaterra, e a coisa lá está bem mais avançada do que aqui, e para o caminho ruim.
    Basicamente a crítica de todo e qualquer argumento feminista, ou da própria ideologia, ou até mesmo de qualquer mulher, é recebido com extrema hostilidade. Argumentos e ideologias não feministas também são vistos como “problemáticas” e “misóginas”.
    A discussão nesses países sofre e muito de fanatismo, o que se espera de um movimento que há muito tempo se transformou em uma ideologia quase que religiosa.
    Aqui o feminismo ganha força, enquanto nos países dos quais nós importamos o movimento ele perde força, com a constante crítica (construtiva) da oposição, e intelectuais e ativistas anônimos, o desmascaramento da ideologia tem sido, ainda que lentamente, progredido a ponto de questionar sua validade. Não apenas isso, os avanços do movimento levaram ao movimento, em muitas instâncias, atacar a sí mesmo, devido a diversas incongruências internas.
    O constante uso e abuso de dados falsos e insuficientes, que mais se manifestaram em forma de polêmicas do que em busca por melhores e mais justas condições de vida aos cidadãos, e não apenas isso, em casos criando injustiças e desigualdade de gênero, tem sido fortes armas contra um movimento que não sabe mais quando parar.
    A situação social dentro de universidades que se aproxima de uma distopia Orwelliana preocupa à muitas pessoas sãs e normais. Aonde raios as novas gerações vão parar com tamanha lavagem cerebral?

    É muito material para se discutir, é muita hipocrisia, muita teoria e ideologia sem prova, sem base, muitas anedotas, muitos dados reais ignorados, muita “conquista feita pela metade”.

    Toda pessoa capaz de olhar este assunto com imparcialidade encontrará em toda a história do feminismo, e principalmente atualmente nos países citados acima, um ambiente fértil para encontrar incongruências, hipocrisia, e o mais puro e simples sexismo e misandria.

    A história vai fundo, muito fundo, e o fundo… É muito assustador.

  3. Antes de mais nada, um beijão à Thaís, amiga de muitos anos a quem prezo e por quem guardo profundo respeito como profissional e amiga. De significativos, os dois último parágrafos contêm a síntese de nossa realidade no tocante à sociedade. Não somente negras pobres, brancas pobres, mas a todas as mulheres, como ponto de referência para uma sociedade, mais justa, e, por consequência, muito mais nobre. Parabéns à Thaís e a todas as mulheres que buscam a igualdade perante os homens e perante a sociedade como um todo.

  4. A liberdade de opinião, no Brasil, é um atributo da igualdade formal, ratificada pela Constituição federal. Contudo, ela precisa estar a serviço da igualdade econômica, base das injustiças sociais, e do enfrentamento de temas como o machismo. Se não for assim, essa liberdade de opinião, que é um fato hoje, consolida preconceitos. Isso porque, na sua projeção teleológica, se eu tenho direito de dizer tudo o que penso, também tenho a prerrogativa de colocar em prática tudo o que penso. Esse individualismo é um fundamentalismo pragmático. Não fica apenas na esfera de “quem diz o que quer ouve o que não quer”, mas contribui com uma descrença que faz tudo ficar do jeito que está. São as palavras dissimulando a realidade. Isso permite que alguém se desculpe sem mudar de opinião. Ou que um tema vire subtema ou tema diverso. Parabéns pelo texto. Vai além da metalinguística para fincar linques com o mundo circundante e com as mediações que dele emanam.

  5. Excelente reflexão Thais! Li os textos de Fernanda, sua repercussão nas redes sociais, a fala de Mônica e agora a sua e sinto-me estranha porque concordo e discordo em partes com todas as manifestações. Não me considero imparcial à causa e nem posicionada sobre um muro. O fato é que como ser do gênero feminino nascida no século passado (+ de 50), carrego, mesmo à contra gosto, uma bagagem cultural contaminada de machismo e imagino que se passe o mesmo com muitas de nós, pra não chutar a maioria. Pra essa camada grande de mulheres o feminismo como se apresenta embalado é de fato caricato e não nos convence embora pleno de razão e merecedor de todo o crédito. Daí penso que o grande problema é o “Como” abordamos nossas aflições, necessidades e anseios e não o O quê. Sabedoras do quanto homens, de modo geral, são ruins em decodificar a linguagem e suas mensagens, vale rever nossas estratégias de comunicação nesse sentido. Estimular processos polarizadores de opinião em nada nos ajuda. Nós também precisamos urgentemente apreendermo-nos como Sujeito mulher em vez de Objeto mulher. Como parceiros de vida nesse planetão, não como inimigos ou inimigas. Forte abraço!

    1. Olívia, você está certíssima quando fala da bagagem cultural contaminada de machismo. As mulheres são grandes veiculadoras desses valores, mesmo sem o perceber. Creio, porém, que a adesão a uma causa como essa possa vir da percepção da realidade, independentemente da adesão a um discurso ou embalagem. Eu evitaria dizer que homens, de modo geral, são isso ou aquilo. Acho que esse tipo de olhar apenas reforça estereótipos e precisamos ir além disso. Caso contrário, não nos libertaremos das amarras do senso comum e não avançaremos. Abraços 🙂

  6. Sua fala é ponderada,porém não podemos esquecer que todas as mulheres são corresponsáveis com a formação humana, com educação dos meninos e meninas. Precisa ensiná-los amar e respeitar uns aos outros,ser confiáveis e responsáveis.É preciso lembrar e mostrar que há diferenças inatas e culturais .Há interdependência e co-participação do homem e da mulher (pai/ mãe) Pelo menos, deveria ser. É experiencia , é visão de mundo? Sim ,e, da brevidade da vida . . Alguém tem culpa porque a pele é clara ou de outra cor e também porque seus (nossos) pais se esforçaram com a ajuda de Deus para que seus filhos fossem a escola e tivesse o pão todos os dias? Isso sim precisa ser direitos de todos.”Ama com fé e orgulho a terra em que nascestes.”

    1. Sim, Iolanda. As mulheres são corresponsáveis, são machistas também. Note que os textos que motivaram esta reflexão são de mulheres inteligentes que, no entanto, não percebem o machismo da sociedade. Talvez não o percebam ou não se sintam incomodadas porque, como muitas, não desafiaram o projeto de mulher que lhes foi ensinado desde o berço (casar, ter filhos, cuidar do marido e das crianças etc.). Mesmo trabalhando e tendo inserção na mídia, sendo “profissionalmente realizadas” (acho), não desafiaram nada, o que lhes rendeu como “topografia da fala” o lugar do senso comum, que ganha ares de “opinião”…

  7. Cara Thaís,

    Tanto o texto da atriz Fernanda Torres quanto o da apresentadora Mônica Waldvogel têm um mérito inquestionável: o de ter dado causa ao seu texto, tão inteligente, bem construído e, o que é mais importante, verdadeiro. Ao desvelar o diversionismo talvez involuntário e quiçá inconsciente da apresentadora (a eficiência da ideologia está justamente em tornar o preconceito inconsciente, reforçando-o), você repõe em discussão, com a lucidez e a elegância que lhe são peculiares, o que de fato importa. Forte abraço.

    1. Caro Anísio, agradeço as suas palavras e o reforço do conceito de ideologia. É esta o que torna “invisível” o machismo mesmo para mulheres que manipulam tão bem as palavras. Grande abraço 🙂

  8. “Eram os Cuecas opressores?”… Eu, habitante do fundo da panela, tenho a percepção q o feminismo é combatido + pelas mulheres do q pelos homens. Eu escuto todos os dias frases ditas por mulheres: “mulher não presta”, “mulher não sabe o q quer”, “se eu fosse homem eu pegava todas”, “meu filho é safadinho!” e por aí vai. Não pretendo fazer análise de caminhoneiro, mas “a inveja mata” e isso me permite deduzir q o “empoderamento feminino” ocorreu para um conjunto seleto de mulheres e as q ficaram excluídas sentem inveja e, ao invés de subirem a mesma montanha, atiram pedras para derrubar aquelas q avançaram. É óbvio q minha opinião é desprezível, mas está baseada em dados empíricos q coletei. Espero estar errado, mas sei q não estou.

    1. Nilton, é verdade. Há muitas mulheres que fomentam o machismo. Talvez não percebam que fazem isso, mas são poderosos agentes de manutenção das assimetrias de gênero. Creio que toda vez que alguém diz “homem é assim”, “mulher é assim”, de alguma forma, está reiterando o discurso machista, do qual até mesmo os homens são vítimas.

Deixe uma resposta