Quem é o dono das palavras?

“Lutar com palavras/ é a luta mais vã. ” (Carlos Drummond de Andrade)

Na semana que passou, tomamos conhecimento de uma estranha iniciativa do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), que se articula para tomar posse de uma das mais antigas palavras da nossa língua. Entende o referido comitê que a palavra Olimpíada deva ter proibido – isso mesmo! – o seu uso em outras competições que não os Jogos Olímpicos, como as já célebres olimpíadas de matemática e de outras ciências.

O argumento em defesa de semelhante bizarria é o risco de que a palavra venha a ter algum uso “comercial”, perigo esse que, aparentemente, não houve até hoje, antes que a Olimpíada viesse parar no Brasil.

Se o argumento é mesmo esse, cabe perguntar por que interferir em competições de natureza educacional que, por assim se denominarem há tanto tempo, já foram parar até mesmo no dicionário.

Quem abrir o “Houaiss” no verbete “olimpíada” encontrará, depois da definição principal, em que se explica que o termo descrevia o período de quatro anos entre os Jogos Olímpicos na antiga Grécia, as seguintes acepções:  “competição (de algum esporte ou jogo) que se repete em épocas determinadas” Ex.: olimpíada de xadrez, olimpíadas escolares  e “competição em que se demonstra o conhecimento em uma área do saber” Ex.: olimpíada de matemática, olimpíada de química.

Os deuses do Olimpo talvez não estejam gostando muito dessa brincadeira, afinal as Olimpíadas surgiram para homenagear a Zeus, o principal deles. Se é que palavra tem dono, talvez seja melhor consultar os gregos. Depois da confusão em torno do termo “paraolímpico”, que, na marra, virou “paralímpico” no nome do comitê (Comitê Paralímpico Brasileiro), a turma volta a tratar de assunto que não é de seu domínio.

 

É bom lembrar que faz parte da normalidade linguística a movimentação das palavras por diferentes campos semânticos, o que só prova a sua vitalidade entre os usuários da língua.  Até mesmo uma marca registrada pode ter seu uso amplificado pelos falantes de um idioma. Vale aqui lembrar um caso muito conhecido: a popular lâmina de barbear chamada de “gilete” deve seu nome à marca registrada “Gillette”, que leva o nome do inventor do aparelho. Ninguém, que se saiba, processou ninguém por uso indevido da palavra, mesmo sendo a gilete em questão a do concorrente…

Marcas pioneiras costumam beneficiar-se dessa disseminação de seu nome. O caso do Danone é exemplar. Durante muito tempo, foi um verdadeiro sinônimo de iogurte industrializado. É o que ainda se dá com o Catupiry, que, embora seja uma marca, é percebido como um tipo muito particular de queijo.

Talvez nem todos saibam que “isopor” também veio de uma marca comercial. O produto em si é conhecido pela sigla em inglês EPS, que se traduz como poliestireno expandido.  Hoje, “isopor” já é título de música (da banda Pato Fu) e assim as palavras vão caminhando – e que ninguém vá inventar processos por aí!

Outro caso é o de “fórmica”, palavra também dicionarizada, cuja origem é uma marca comercial. “Bombril” não está nos dicionários, mas está na boca do povo – e, cá para nós, a empresa só tem a ganhar com isso.

“Jet ski” é outro caso semelhante.  Embora pertença à Kawasaki, a marca já foi parar em dois importantes dicionários brasileiros (“Houaiss” e “Aulete” – versão eletrônica) e em dicionários de inglês  (“Merriam-Webster” e “Longman”, por exemplo) como termo que identifica o referido veículo aquático e, entre nós, também o esporte praticado sobre ele. No ano passado, porém, em razão de um grave acidente ocorrido com uma motoaquática de outro fabricante, a companhia divulgou nota na imprensa em que afirmava estar o termo sendo usado de forma incorreta etc.

A tal “forma incorreta” está disseminada, muito mais que o termo comum “motoaquática”, e é bem provável que a maioria das pessoas não estivesse associando o veículo à Kawasaki. Diante da tragédia de uma garotinha atropelada e morta na praia por uma motoaquática desgovernada, a questão era definir regras para o uso desse tipo veículo e efetivar a fiscalização do seu cumprimento.

Em tempos de bonança, porém, as empresas não costumam reclamar ao verem suas marcas circulando sem cerimônia, transformadas em substantivos comuns.

 

 

Comentários

  1. Bem bacana este texto, o aspecto promíscuo da língua é um dos motores de sua evolução, qualquer tentativa de interferir nesta liberdade constitui tirania e deve ser veementemente combatida por todos os veículos de comunicação, que aliás possuem a mania de troca a pronúncia da letra (e) pela letra (i) em certas palavras, dói no ouvido mas, o bom ouvinte sabe que isso faz parte da liberdade da língua, lingua sem liberdade de uso é um dos símbolos da morte de uma sociedade!

    1. Jorge, você mencionou a pronúncia do “e” e do “i”. É muito comum que o “e” seja pronunciado como “i” quando aparece em posição átona (por exemplo, o “e” final de “leite”, “parente”, “vale” etc.). Já o “i” ser pronunciado como “e” geralmente é o que chamamos de hipercorreção (você já deve ter ouvido alguém dizer “previlégio” em vez de “privilegio” — isso sim é problemático). A hipercorreção é a “correção” do que já está certo! 🙂

  2. O COB é um “bando de chupins” encastelados na organização considerando-se “imexível” e querendo “legislar” a seu bel prazer.
    Seria mais útil cuidar bem de suas atividades fins e reverter os benefícios ao país.

  3. Pois é, lembrei também do caso da Maizena. E esses dias me peguei pensando também no caso da Danone, mas quanto ao isopor e ao do jet ski, eu nem imaginava.
    Acho que essa coisa toda de proibir o uso da palavra seja onde e como for, só me faz pensar que as pessoas perdem cada dia mais tempo pensando sobre as questões erradas.

    1. Pois e, Jéssica. Não mencionei o caso de Maizena (marca comercial) porque ele é um pouco diferente. A palavra “maisena” existe em português, derivada de “maís”, um tipo de milho. Em espanhol, a palavra se escreve com “z” (maíz”). Maisena (com “s”) é a grafia em português, diferente da grafia do nome comercial (com “z”).

  4. Vira e mexe, ressurge a tentação de proibir esse ou aquele uso de palavras. Recordo-me de que há algum tempo o hoje ministro Aldo Rebelo, então deputado, apresentou na Câmara um polêmico projeto de proibição de estrangeirismos. Na época, o saudoso Millôr Fernandes fez questão de lembrar que uma das palavras mais brasileiras de nossa língua é futebol. Como diz Umberto Eco no ensaio “Sobre algumas funções da literatura”, (in Sobre a Literatura, Umberto Eco, Record) “A língua, por definição, vai aonde ela quer, nenhum decreto do alto, nem por parte da política nem por parte da academia, pode barrar o seu caminho e fazê-la desviar-se para situações que se pretendam ótimas.”

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