Para aprender a nova ortografia

Como sabemos, oficialmente, foi transferida para 2016 a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990 (sim, o último Acordo Ortográfico, esse que vem sendo posto em prática desde 2009, é de 1990).  O adiamento não significa, porém, que não vamos ter de aprender as novas regras. Aliás, quanto antes o fizermos, melhor, já que isso é muito mais simples do que conviver com dois sistemas ao mesmo tempo.

As manifestações contrárias à mudança fazem parte do jogo.  Postas à parte as críticas fundamentadas, feitas principalmente por profissionais da área, muita gente se opõe à reforma pelo simples fato de ter de reaprender algumas regras, o que, aliás, é compreensível. Na prática, porém, são poucas as alterações e há boas obras disponíveis para quem quer aprimorar o conhecimento.

O TREMA

Lembremos o caso específico do trema, que deixou saudade em muitos, inclusive nesta que ora escreve. O fato é que, embora se ouça aqui e ali algum lamento relativo a essa mudança, os dois pinguinhos sobre a letra “u” eram frequentemente sequestrados da escrita de muita gente escolarizada. Quantas pessoas realmente se preocupavam em usar o sinal diacrítico sobre o “u” de “cinquenta” quando, por exemplo, assinavam um cheque?

Pois é. O trema era esquecido na maior parte das vezes e, quando advertidas do esquecimento, muitas pessoas perguntavam se ele já não “tinha caído”, enquanto outras chegavam a afirmar isso com alguma convicção. Bem, agora caiu mesmo – para o bem ou para o mal, o tempo dirá.

Em tempo: em Portugal, já não se usava o trema. Veja um fragmento do “Ensaio sobre a Cegueira” (1995), de José Saramago:

“Por um instante, primeiro pensou a mulher que o seu homem havia sido apanhado em flagrante delito e que a polícia estava ali para passar busca à casa, ideia esta, por outro lado, e por muito paradoxal que pareça, bastante tranquilizadora, considerando que o marido só roubava automóveis, objectos que, pelo seu tamanho, não podem ser escondidos debaixo da cama.” 

ACENTOS E HIFENS

Não só a acentuação como também o sistema de hifenização foram simplificados no Acordo, mas, mesmo assim, os hifens continuam provocando dúvidas. Os revisores e demais profissionais que lidam com a língua portuguesa no dia a dia devem consultar o site da ABL (www.academia.org.br) e ter à mão obras de referência, como bons dicionários e aquele nosso velho conhecido Grande Manual de Ortografia (da editora Globo), uma obra do filólogo Celso Luft bastante conhecida entre os “militantes” da área.

Note-se que o livro ganhou nova edição, atualizada em conformidade com o texto do Acordo. Encontram-se lá, mais que essas regras, muitas outras informações, organizadas de maneira prática, favorecendo a consulta rápida. Uma lista de abreviaturas, um apêndice de antropônimos (nomes próprios de pessoas) e de topônimos (nomes próprios de lugares)  e uma boa quantidade de expressões da língua que oferecem dúvida quanto à ocorrência da crase e de artigos são tópicos de grande interesse para a turma da revisão.

SIMPÓSIO EM GOIÁS

FICA A DICA: o IV SIMPÓSIO MUNDIAL DE ESTUDOS DE LÍNGUA PORTUGUESA  será realizado na Faculdade de Letras Universidade Federal de Goiás, de 2 a 5 de julho de 2013. Entre muitos outros estudiosos da nossa língua, estarão por lá Evanildo Bechara, Maria Helena de Moura Neves e Ataliba Teixeira de Castilho.  http://www.simelp.letras.ufg.br

 

Comentários

    1. Olá, Elza, “ideia” não tem mais o acento, agora com o Acordo. Boa a sua sugestão de mostrar a diferença entre “afim” e “a fim de”. Vou tratar do tema, certo?

      Abraços, Thaís

    2. Elza, “ideia” agora não tem mais acento, como geleia, panaceia, asteroide, heroico etc. Já publiquei algo sobre “afim” (que quer dizer semelhante) e “a fim de” (equivalente a “para” ou a “ter a intenção de”). Assim, temos ideias afins (ideias parecidas), mas estamos a fim de conhecer novas ideias (temos a intenção de). Abraços, Thaís 🙂

  1. Uma das coisas de eu sempre me orgulhei acaba de cair por terra. Lembro-me quando eu, ainda bem criança, questionei com o meu velho pai, quase analfabeto, a serventia do acento grave. E ele, na sua imensa sabedoria, mandou-me escrever três palavrinhas: sábia (cheia de sabedoria), sabia (verbo saber) e sabiá (a avezinha). Lição inesquecível.
    Hoje, depois de conhecer um certo cineasta americano há décadas, cujo nome é grafado COPPOLA, não sei se pronuncio Cóppola Coppola ((Copóla) ou Copolá. Em português, com o nosso inteligente sistema de acentuações, isso não ocorreria.

    1. Prezado Josué, para dirimir sua dúvida em relação à pronúncia de nomes italianos aqui vai uma dica: o acento é sempre na vogal que antecede consoantes duplas. No caso do Coppola seria Cópola.

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