Os protestos e a língua portuguesa

Os recentes protestos da população em várias cidades do país, além de toda a sua natural repercussão, ensejaram alguns comentários em redes sociais sobre os já célebres “erros de português”, ora escritos em cartazes, ora verbalizados.

Em primeiro lugar, é preciso observar que o que se vê nas situações de espontaneidade é a língua viva, com a sua gramática, que nem sempre coincide com a norma culta (de prestígio) do idioma. Não há como (nem por que) cobrar o emprego da variante culta no calor das manifestações.

Nos ambientes formais, porém, a história é outra. O repórter que disse que a polícia “interviu” cometeu um desvio do padrão culto que, aliás, está entre os mais comuns, inclusive entre pessoas escolarizadas. O que fez foi regularizar um verbo irregular. Como o passado de “partir” é “partiu”, o de “cair” é “caiu”, o de “construir” é “construiu”, o “natural” seria que o de “intervir” fosse “interviu”. Ocorre, entretanto, que “intervir” é derivado de um verbo irregular, o verbo “vir”, cujo passado é “veio” – por esse motivo, o passado de “intervir” é “interveio”.

É provável que concorra para a permanência da irregularidade o fato de que “viu” é o passado de outro verbo (“ver”) – e, portanto, a terminação de passado dos seus derivados (“previu”, “anteviu” etc.). Estabelece-se, assim, uma oposição: os derivados de “vir” têm o passado terminado em “-veio” (interveio, adveio, proveio) e os derivados de “ver”, estes sim, têm o passado terminado em “-viu” (previu, anteviu, reviu).

E atenção: nem todos os verbos terminados em “-ver” são derivados de “ver”. “Escrever”, “descrever”, “absorver” e muitos outros são verbos regulares (escreveu, descreveu, absorveu etc.).

Outra reclamação dos internautas foi o clamor de muitas vozes que, em uníssono, repetiam a palavra “conhecidência” em vez de “coincidência”. Esse já não é um desvio tão comum entre as camadas mais escolarizadas. “Coincidir” é incidir ao mesmo tempo – duas coisas coincidem ou são coincidentes.

Nesse caso, não há nenhuma relação com a ideia de “conhecer”. Esse tipo de desvio pode ter origem numa espécie de acomodação do termo desconhecido (“coincidir” não é de uso coloquial) a uma palavra de sonoridade algo semelhante (“conheci”/ “coinci-”).

Há outros casos como esse (dizer “figo” em vez de “fígado”, trocar o “fuzil” em vez de trocar o “fusível”, “destrinchar o frango” em vez de “trinchá-lo” etc.). Isso sem entrar no campo dos parônimos, que são aqueles termos parecidos, mas de significados diferentes (fragrante/ flagrante, eminente/iminente, vultoso/ vultuoso etc.),  e sem levar em conta os que confundem “luxúria” com “luxo” ou “vultuoso” com “voluptuoso” etc. O fato é que o “erro” do outro é aquele que “causa dor nos ouvidos”…

Houve quem se queixasse da forma “vinhesse” (“que vinhessem em paz”). Esse também é um desvio do padrão culto, mas típico de uma das variantes da nossa língua (quem nunca ouviu essa forma?). Por tratar-se de uma variante não prestigiada, provocou incômodo em algumas pessoas. Para além do certo e do errado (definitivamente discutível quando se trata de língua), essa mistura de variantes linguísticas e também as “queixas” dos internautas têm algo a revelar: as manifestações realmente agruparam pessoas de diferentes estratos sociais, o que é relevante para quem futuramente se dispuser a analisar com profundidade o movimento. 

 

 

 

Comentários

  1. Além destes erros, me doem os ouvidos aqules erros que nascem da nova linguagem corporativa, como por exemplo:
    – “fico no aguardo” de sua resposta
    – Espero pelo seu “aceite” à nossa proposta de contrato.
    E todos os gerúndios e triplicaçãõ de verbos. Gostaria de ver um dia uma matérias sobre eles dirigida para nossos executivos

        1. Filipo, tenho formação na área e, a propósito, não disse em nenhum momento que as formas “não existem” nem mesmo que são certas ou erradas. Será que você teve tempo de ler o texto com atenção? Abraço

          1. Thaís Nicoleti, parabéns!

            Tenho acompanhado seus trabalhos e são de suma importância para todos nós, pois como se sabe necessita-se, cada vez mais, de profissionais que queiram doar um pouco mais do saber aos outros e você faz isso. parabéns!

          2. Acho que ele estava falando do comentário da Ana Oestreich, e não da matéria 🙂
            Gosto muito dos seus textos, Thaís! Parabéns! Abraço

    1. Pude notar sua indignação com os erros dos outros, porém, devemos tomar cuidado com o que escrevemos, pois percebo em seu texto alguns erros de digitação e concordância.
      E prefiro ficar com o seguinte pensamento: “o país está atrasado na educação”. Na economia somos o 6º no mundo, mas na educação somos o 88°.

  2. Como se pode criticar pessoas comuns por cometer erros de Português se até a ABL promoveu um aportuguesamento do termo italiano imbroglio de maneira errada ?
    Consta no dicionário imbróglio quando o certo seria imbrólhio. Pois, na verdade, seria o mesmo que “jungle” virar “jângle”, “abat-jour” virar “abajour” , etc.

    1. A forma como se ensina está errada, é tudo burocrático. Tenho aprendido muito da língua portuguesa e inclusive produção de textos com essas crônicas da consultora Thaís Nicolette. Nas escolas deveriam disponibilizar computadores ou notebooks pros alunos terem acesso a essas crônicas, dessa forma haveria aprendizado do idioma.

  3. O Brasil pegando fogo e você preocupada com “erros de português”. Olha, com algumas exceções, como o Costa e Silva, que confundia latrocínio com laticínio, fomos sempre governados por homens letrados, muitos deles intelectuais de nome, que conseguiram construir o país mais desigual e injusto do mundo sem cometer um erro de concordância”.

    1. Vamos acabar com ensino de idiomas, cultura, arte, culinária, filosofia. Proponho ao senhor que veja o filme O Baile de Étor Scola, que evidencia a influência de momentos históricos na música e moda. E não creio que o país esteja pegando fogo, são manifestações que sempre ocorreram durante a história.

  4. Erros de português graças a educação deste país!!! Parem de criticar pois a intenção não é corrigir quem está lutando e sim apoiar a manifestação. Isso é falta de matéria pra escrever? Vai as ruas e procure saber ao menos o motivo das manifestações, os objetivos que eles tem e depois publiquem que vão ganhar muito mais respeito do povo brasileiro do que mídia e dinheiro que é o que vocês buscam!!!

  5. Gramática não é linguá. E o que importa é o conteúdo e se a mensagem foi transmitida e entendida.

    Perdem qualquer erro gramatical. Não suporto a hipocrisia dos ditos superiores, prefiro a simplicidade e a veracidade das informações.

  6. Mais uma prova de que a educação está falida em nosso país. Aonde até os professores tem erros de gramática. Estes dias no facebook li o comentário de uma professora que escreveu hoje com a letra g (hoge),fiquei horrorizada.

    1. Antes de criticar a professora que escreveu hoge, sugiro que coloque o acento circunflexo em seu verbo ter quando flexionado no plural, Deborah.
      Ou fique horrorizada com seu próprio desvio gramatical, não é?

  7. Fico impressionado com a capacidade de abstração… diante das causas abordadas nos protestos Brasil a dentro existem pessoas interessadas na gramática… e depois, vão criticar as roupas? tão pequenos…

  8. O ensino de português nas escolas tem que começar em casa e,para todos.Haja vista,nossa presidenta,em entrevistas disse:”previlégio”, Lula sem problema “escorrega” neste vocábulo,e o Brasil todo diz:pobrema , ploblema,pobre menina rica,última flor do Lácio,está viva, mas também nem tanto!

  9. sou um cidadão que encontrou neste meio de comunicação, um forma de expressar o meu apoio ao povo brasileiro que está nas ruas, gostaria de solicitar ao jornalismo do Brasil, aos diretores, editores, reporteres, que mostrem realmente em rede nacional o que os brasileiros estão realmente reivindicando, que mostrem as faixas, os pedidos, os cartazes, que mostre juntamente com as imagens dos manifestantes, motrem imagens do caos em nossa saude, o caos me nossa educação, motrem o caus em nosso transporte, que mostrem a corrupção deslavada em nosso país, parem de focar nas depredações, nos baderneiros, parem de focar na minoria, foquem o que a massa democratica séria está reivindicando, não será 0,20 de redução na passagem de onibus e trens ou metros, que fará um cidadão mais digno. Ajudem o povo brasileiro. somente a imprensa tem o poder de ajudar o povo brasileiro. Eu sou um, um, em meio a milhoes que estão pedindo ajudar.

  10. Gente, o blog não é pra falar de política e muito menos de manifestações.

    A ignorância é tão grande que nem sabem que são os responsáveis pela educação, saúde…e onde devem manifestar suas injurias.

    Portanto, antes de escreverem essas bobeiras aqui no excelente blog da Thaís, vão buscarem informações para entenderem e se posicionarem sobre o caso!

  11. Os verbos irregulares precisam ser regularizados, na medida do possível.
    A nossa língua clama por alforria, dinamismo, naturalização!!!
    Considero que algumas regras da norma culta é que estão “erradas” e as analogias de crianças e alguns adultos estão certas: ex: EU HAVO, REAVO (eu hei), REAVESSE (reouvesse), EU CABO(eu caibo), CABEU (coube), etc. É por essa e outras que os portugueses vivem pedindo “esmolas” à União Européia.
    Essa questão da língua lembra o ditado popular da invenção da roda pelo português: “O português fez dois quadrados colocou um eixo e pôs o boi para puxar, a medida que foi rodando os cantas das rodas foram se desgastando até ficar arredondadas, EIS AI A INVENÇÃO DA RODA PELOS PORTUGUESES.” Será que não dava para perceber isso antes?

  12. Fiquei muito feliz ao ver que eu tenho a mesma opinião que a senhora quando diz que “Não há como (nem por que) cobrar o emprego da variante culta no calor das manifestações”. Fiquei indignada quando saíram fotos de cartazes com erros de português no site Educação UOL ( http://educacao.uol.com.br/album/2013/07/02/manifestantes-escorregam-no-portugues-em-cartazes-de-protesto-pelo-brasil.htm ) . O cartaz em destaque na 1ª página da UOL diz que os manifestantes escorregam no português quando na verdade ele foi escrito propositadamente com os erros chamando a atenção para a má educação dada no ensino público.
    A senhora foi muito sensata.

    1. Carolina, é seu ponto de vista. Agradeço a observação, mas o texto do blog não é tão formal; na verdade, é algo que poderia ser uma conversa. Além disso, embora haja várias vezes a palavra “que”, com certeza não há uma subordinada “pendurada” na outra, não há defeito de construção sintática. Meu texto é simples, mas não é defeituoso. Não achei que fosse o caso de mudar. Pode ser? Abraços:)

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