“Extravazar” ou “extravasar”?

A dúvida não é pouco frequente e, apesar da existência de corretores ortográficos eletrônicos, deslizes dessa natureza ocorrem até mesmo em editoras. Um fragmento do romance japonês “Mil Tsurus”, de Yasunari Kawabata, ilustra o problema:

Aquilo espantou Kikuji. Não havia o menor sinal de inimizade ou de maldade nas atitudes dela. Mas, ao contrário, a saudade parecia extravazar da viúva. O encontro com KIkuji parecia deixá-la realmente feliz.

A grafia correta do termo é “extravasar”, com a letra “s”, não com “z”, como foi grafado no livro. Muita gente faz confusão por imaginar ser esse verbo um derivado de “vazar”, este escrito com “z”. Na verdade, não é isso o que ocorre.

“Vazar” é deixar sair o conteúdo de um recipiente até que fique “vazio”. “Vazar” e “vazio” são da mesma família etimológica, à qual não pertencem “extravasar” e “envasar”, ambos derivados de “vaso”. “Extravasar” é transbordar de um “vaso”; “envasar” é colocar em um “vaso” (recipiente) — daí a conhecida expressão “gás envasado de cozinha”, que é o gás de bujão (ou de botijão). “Bujão”, embora tenha outros significados, é sinônimo de “botijão” – pelo menos no Brasil, onde vive a maior parte dos falantes da língua portuguesa. Derivados de “vaso” escrevem-se com “s”: extravasar e envasar, portanto.

Comentários

    1. Liliane, o trecho é o seguinte: “…são da mesma família etimológica, à qual não pertencem “extravasar” e “envasar”…”. O verbo “pertencer” requer a preposição “a” (pertencer a uma família etimológica). Essa preposição “a” encontra-se com o “a” do pronome relativo “a qual”, daí a crase, certo? Vamos imaginar que tivéssemos usado “grupo etimológico”: … grupo etimológico AO qual não pertencem… Está mais claro agora? Abraços 🙂

    1. É verdade, mas o tal “bujão” já é usado com o sentido de “botijão” no Brasil há muito tempo. Também prefiro o “botijão”, mas as pessoas sempre querem saber se também podem fazer esse uso. Digo que sim, que já é abonado pelos dicionários. Grande abraço 🙂

    1. Isso mesmo. Vazar é tender ao vazio. Já extravasar é transbordar do vaso. Também usamos esses verbos muitas vezes no sentido figurado, o que vai deixando distantes as ideias de vazio e de vaso, mas é bom ter em mente a origem das palavras para fixar a sua grafia correta. Abraços 🙂

  1. Oi Thaís,
    É correto o uso de “favor + infinitivo” em vez de “por favor + imperativo”?
    (“favor responder” em vez de “por favor, responda”)

    Para mim, a primeira opção parece errada, mas não encontro nada sobre isso.

    Gosto muito dos seus textos!

    1. Alice, escrevi um texto sobre esse tema na minha coluna da Revista da Cultura. Vou tratar disso aqui no blog, já que você perguntou. Não direi que está errado, pois o infinitivo pode ser usado como imperativo, mas é muito pouco gentil. Voltarei ao tema, certo? Grande abraço 🙂

  2. 1″Os dois galões continham sete litros, mas o caboclo acrescentava mais um, fazendo de conta que se enganara.”
    2″O poderoso líquido atravessou a raiz, obrigando o cigano a mastigar de lado.”
    Vírgulas antes de gerúndios?
    Obrigado.
    Em tempo: Que bom que você se esforça para ajudar as pessoas .
    Basíglia.

  3. Querida Thaís, desejo muitíssimo saber sobre o título de um programa de TV. “Quem sabe, sabe” me parece inadequado, pois não se separa com vírgula o sujeito do predicado. É isso mesmo? Muito obrigado pela dedicação.

    1. Maurício, concordo com você quanto a não usar vírgula entre sujeito e predicado, mas há, de fato, certa tolerância quando as formas verbais são repetidas, como nesse caso. Argumenta-se que o ritmo da leitura pede essa pausa etc. De minha parte, ainda prefiro sem a pontuação, mas a escolha é aceitável. Grande abraço 🙂

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