“Tristeza e tinta fresca”

O título acima reproduz um verso da bela canção “Gentileza”, de Marisa Monte,  inserido na seguinte estrofe: portugues em dia

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca

O fragmento pode ensejar uma conversa sobre concordância verbal e nominal na língua portuguesa. Vamos examinar os dois versos finais da estrofe: Só ficou no muro/ Tristeza e tinta fresca.

O sujeito de “ficar” é “tristeza e tinta fresca”. Foi apenas isso o que ficou no muro depois que pintaram tudo de cinza. Podemos, afinal, usar o verbo no singular com um sujeito composto?

A resposta é positiva, mas é preciso fazer uma ressalva. Essa concordância é possível quando o sujeito composto vem depois do verbo, exatamente como ocorre na letra da canção. A esse fenômeno – muito comum, aliás – chamamos concordância atrativa. É como se o verbo fosse atraído pelo núcleo que lhe é mais próximo (só ficou tristeza).

Muito bem. A nossa conversa sobre concordância ainda não terminou. Vejamos agora como se harmonizam substantivos e adjetivos nesses versos. Antes disso, porém, vale relembrar a regra de atribuição de adjetivo a uma sequência de substantivos.

O adjetivo que se coloca depois de dois ou mais substantivos pode concordar apenas com o último (concordância atrativa) ou ser flexionado em harmonia com o conjunto dos elementos. Se dissermos que alguém vestia calça e camisa azul, entenderemos que tanto a calça como a camisa eram azuis. Não há necessidade de pluralizar o adjetivo (calça e camisa azuis), embora isso também seja correto.  

Não há necessidade porque, tendo sido informada a cor da camisa, era de esperar que, sendo a calça de outra cor, isso também tivesse sido informado (calça preta e camisa azul, por exemplo); na ausência de informação, o adjetivo posposto abrange todos os elementos.

É o mesmo que ocorre quando dizemos que alguém estuda língua e literatura italiana. Poderíamos dizer língua e literatura italianas, mas isso não é imprescindível, dado que o adjetivo, mesmo no singular, abrange naturalmente os dois elementos.

Dito isso, voltemos ao verso final da estrofe em questão: “tristeza e tinta fresca”. O contexto e a própria natureza semântica do adjetivo (“fresca”) são suficientes para que se compreenda que “fresca” é uma qualidade apenas da “tinta” (a tinta fresca com a qual pintaram o muro de cinza). Em situações corriqueiras, nas quais possa surgir alguma dúvida sobre a interpretação desejada, costumamos optar por deixar o termo adjetivado antes daquele que é tomado em sentido absoluto. “Vestia saia curta e camisa”, por exemplo, numa situação em que apenas a saia fosse curta, seria melhor que “camisa e saia curta”, construção em que o adjetivo poderia ser interpretado como referente a ambos os elementos.

No caso da canção, a escolha não perturbou a compreensão da ideia e adequou-se perfeitamente à melodia.  Ouça.  

 

Comentários

  1. Perfeito, Thaís! Mudando de assunto, como você classificaria, morfologicamente, o QUE de frases como: Que o ano novo seja assim, seja assado; Que seja muito feliz, etc, etc? Depois de muito pensar, conclui tratar-se de uma partícula expletiva, sem nenhuma função sintática. Concorda comigo?

    1. Olá, Carlos, tudo bem? Concordo com você. Essas orações são optativas (exprimem desejo) e nelas o “que” só tem a função de realçar o desejo. Caso o período fosse composto, teríamos algo como “Desejo que o ano novo seja repleto de alegrias”, situação na qual o “que” seria uma conjunção integrante. Abraço 🙂

  2. Desculpem-me a heterodoxia, mas, no caso da palavra QUE, creio em que ela é, talvez, uma interjeição. A noção de partícula expletiva não é morfológica. Não “entendo” por que em:

    Que lindo! o QUE é advérbio e em

    Que tristeza! o QUE é pronome indefinido.

    Sintaticamente, ambos os exemplos são inanalisáveis. Morfologicamente, atribuir a um ou a outro uma classe é, parece-me, arbitrário.

    amsl

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