“A”, “há” ou nenhuma das anteriores

Uma de nossas leitoras enviou uma interessante questão sobre o emprego de  “a” ou “há” em determinado enunciado. Ela precisava formular a seguinte sentença: “O veículo precisa estar sem sinal de GPS a (ou há?) mais de dois dias para ser colocado em quarentena”. Nesse caso, pergunta ela, seria cabível empregar a preposição “a” ou a forma verbal “há”?   final o leitor quer saber

É preciso considerar, em primeiro lugar, que a forma “há”, do verbo “haver”, indica tempo decorrido. Por esse motivo, são corretas construções como as seguintes: “Estou aqui há mais de dois dias”, “Trabalha na empresa há dez anos“, “Esteve em Berlim há dois anos” etc. A preposição “a”, por sua vez, pode indicar distanciamento, até mesmo quando associada à ideia de tempo. Veja-se, por exemplo, uma expressão como “daqui a pouco”, na qual a preposição “a” assinala um intervalo (de um ponto a outro, de um momento a outro). Como é fácil perceber, o intervalo não configura tempo decorrido, portanto não seria possível empregar nessa situação a forma do verbo “haver”.

Da mesma forma, é a preposição “a” que usamos em construções como “A dois meses do início da Copa do Mundo” (dois meses antes do início) ou “A duas semanas do jogo” (duas semanas antes do jogo). Note que não se trata de tempo decorrido, mas, ao contrário disso, de um tempo futuro.

A frase enviada pela leitora rigorosamente não comporta nenhuma dessas duas formas. A preposição “a” logo seria descartada, pois não há demarcação de intervalo (como há em “de domingo a terça-feira”) nem projeção de tempo futuro (como há em “a dois meses da Copa”). A forma do verbo “haver”, por sua vez, poderia parecer, ao menos à primeira vista, ser a melhor solução, já que indica duração. Ocorre, no entanto, um problema: o tempo verbal da frase. Caso o verbo principal estivesse no presente do indicativo,  teríamos o seguinte: “O veículo está há mais de dois dias sem sinal de GPS” ou ainda “Faz mais de dois dias que o veículo está sem sinal de GPS”.

Na sentença original, porém, não seria adequado empregar a forma “há”, pois a situação ainda não se concretizou e, consequentemente, o tempo não decorreu. Para fazer a ligação entre os elementos (falta de sinal de GPS + tempo de mais dois dias), é necessário empregar uma preposição que indique apenas a ideia de duração (sem a ideia de “passado”). Veja uma sugestão: “Para ser posto em quarentena, o veículo deve estar sem sinal de GPS por mais de dois dias”. 

 

 

Comentários

  1. Thaís, adorei seu blog – e vc responde a(à) dúvida com simplicidade e clareza, muito obrigado!
    E aquí vai minha dúvida – sendo a língua portuguesa (não a língua da portuguesa) única, complexa e difícil de entender até para poetas e linguístas, por que (porque, porquê, por quê) não se cria uma discussão nacional para simplificá-la? Para mim, perdoe-me (perdoem-me) os puristas, a lingua portuguesa é uma mulher belíssima, mas muuuuiiiiiitttttoooo grande e muito difícil. Foi traumático ensinar meu filho a falar e responder algumas de suas perguntas relacionadas ao vocabulário. Eu imagino que muitos que lerem meu texto discordarão (podem xingar/chingar à vontade), mas penso que muitos concordarão que uma otimização consistente de nosso idioma seja necessária (e também das leis, burocracia e et7 – legal et7, né? Mas bem burrinho, rê rê).

    1. Antônio, nem sei o que seria alguém tentar simplificar a língua. A língua é o que os seus falantes fazem dela. Essas dificuldades a que você se refere vão diminuindo à proporção que a carga de leitura vai aumentando. EStimule seu filho a ler. Leia com ele. Vocês verão como as coisas vão ficar mais simples. Abraços 🙂

  2. Na minha época esta era uma dúvida primitiva. Agora confundir “a” com “há” tornou-se uma interessante questão. A que ponto chegamos. Já que a Folha tem uma consultora de língua, que tal ensinar os “jornalistas” a usar a crase?

    1. Marcos, muita gente, por incrível que pareça, tem dificuldade em perceber a ocorrência da crase. Para mim, todas as questões que envolvem a língua portuguesa são interessantes. Todas mesmo. Abraços

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