Crase em título jornalístico suscita dúvida entre leitores

É comum algum leitor questionar a ausência do acento indicador de crase em títulos publicados no jornal. Certamente haverá casos em que a Redação terá cometido um deslize, mas, na maior parte das vezes, tratando especificamente dos títulos, o problema é outro.     final o leitor quer saber

Antes de prosseguir, não custa lembrar que a crase (do grego “Krasis”, “fusão”) é um fenômeno fonético de fusão de sons vocálicos, que, no português atual, ocorre sobretudo quando a preposição “a” antecede um artigo “a” (ou “as”).

O acento grave serve para assinalar a ocorrência desse fenômeno, portanto, para empregá-lo corretamente, é necessário perceber a presença de dois “aa”.

Dito isso, observemos uma manchete que esteve na “home” do site da Folha:

Brasil escolhe “Que Horas Ela Volta?” para concorrer a vaga no Oscar

Um filme pode concorrer a um prêmio, certo? O verbo “concorrer”, de fato, constrói-se com um complemento introduzido pela preposição “a”. Como todos nós, em algum momento, aprendemos que ocorre crase antes de palavra feminina, seria muito fácil “ligar o piloto automático” e acentuar o “a” de “concorrer a vaga no Oscar”.

Se fizéssemos isso, porém, estaríamos afirmando que só existe uma “vaga” no Oscar e que o referido filme estaria concorrendo a ela. Existem cinco “vagas”, ou seja, cinco obras disputarão o Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro. “Que Horas Ela Volta?” foi a escolha do Brasil para concorrer a uma dessas “vagas”.

Teria sido possível empregar um artigo indefinido (para concorrer a uma vaga no Oscar/ a uma das vagas), mas, nos títulos jornalísticos, frequentemente se opta pela simples omissão do artigo definido. Quando isso ocorre diante de palavra masculina, ninguém se queixa da falta de um artigo (vamos imaginar que o título fosse “Brasil escolhe filme para concorrer a prêmio”), mas, diante do termo feminino, surge a dúvida.

Outro título que suscitou questionamento foi este:

Haddad e FHC mantêm diálogo e chegam a ir juntos a ópera

O caso é semelhante. O jornalista usou “ópera” como gênero musical, como poderia ter usado “concerto” (Haddad e FHC mantêm diálogo e chegam a ir juntos a concerto). Vão juntos a um concerto, não importa qual, portanto sem o artigo definido – o mesmo vale para a ópera, certo?

Sem artigo, sobra apenas um “a”, a preposição, portanto não ocorre a crase.

Essas construções configuram o que se poderia chamar de estilo jornalístico.

Quem lê jornal está habituado a títulos como “Dólar passa de R$ 3,90”, “Lobista aceita fazer delação premiada” etc. Note que “dólar” e “lobista”, que estão no centro da notícia, que são seu foco, aparecem despidos de artigos. Ao mesmo tempo, os verbos das afirmações estão no tempo presente. Com esse recurso, o jornalista chama a atenção do leitor para um fato novo (tempo presente) e ainda não conhecido do leitor (sem artigo).

Isso não significa que não haja situações, mesmo nos títulos, em que o artigo é necessário e não pode ser suprimido. 🙂

 

 

Comentários

  1. É um prazer ler suas colunas, sempre tão esclarecedoras e didáticas. Admiro muito o seu trabalho.
    A respeito do assunto desta matéria, o que me deixa desconfortável é o próprio título do filme. A mim parece que falta claramente a preposição “a” no início do título: “A que horas ela volta?” e não “Que horas ela volta?”
    Você concorda? Ou o emprego dessa forma talvez se justifique, no caso, por algum possível aspecto do contexto do filme (um falar menos preocupado com a norma culta da língua?).
    Obrigada e um abraço.

      1. Não seria uma questão de “estilo cinematográfico”?
        Um “estilo jornalístico” que me incomoda profundamente é “mi” como sinônimo de milhão. Enquanto coloquialmente algumas pessoas (principalmente de gerações mais antigas) às vezes dizem “milhão” querendo dizer “mil”. Coloquialmente vá lá, mas por escrito?! Eita estilinho hodierno ridículo!
        Fecha parêntese. Com relação à crase, acho que o macete mais fácil para quem fica na dúvida é tentar reconstruir a frase trocando a palavra feminina por uma alternativa masculina. Se na frase imaginária ficar “ao”, tem crase. Se ficar “o” (só artigo) ou “a” (só preposição), então não. Como no exemplo do seu artigo, trocar vaga por prêmio, é a técnica que sempre uso para decidir rápida e seguramente se grafo ou não o acento grave.

    1. Organizações brasileiras, sejam de qualquer natureza, não perdem a chance de NÃO ensinar as pessoas o que é correto! Quantas crianças (espero que poucas vejam essa porcaria de filme) e até adultas vão ficar na cabeça que o correto é “que horas…?”? Abs!

      1. Acho que a questão é um pouco mais delicada. O “correto” não é algo tão estático quanto gostaríamos que fosse. Reconheço que ver por escrito uma estrutura típica da fala causa certo impacto, mas isso pode ser um bom mote para a discussão em sala de aula. Abraços, 🙂

    2. Professora! Por um “estalo” de memória, recordei um nome: Thais Nicoleti.
      Fui buscar que nome era esse e eis que surgiu a foto da pessoa que me fez amar a língua portuguesa. Me senti como um náufrago que acaba de encontrar terra firme. Abraço professora.

      1. Professora Thaís, sempre aprendi mais com as perguntas que me fizeram do que com as respostas que eu já tinha prontas. E o Aristóteles tem razão. A não ser que você nos prove que o uso de uma negação exija a ocorrência do subjuntivo, o que justificaria a exclusão do seu uso na sequência do enunciado. Respeitosamente, coloco-me à disposição para o debate.

        1. Oi, Sérgio, não há como provar nada, creio eu, já que estamos falando de um objeto em constante mutação. Imagino, porém, que você também empregue o subjuntivo na oração que completa o verbo “negar”, por exemplo. Você diz “fulano nega que fez ou fulano nega que tenha feito”? Já com o verbo “afirmar”, optamos normalmente pelo indicativo. Cito aqui para você uma passagem de Celso Cunha e Lindley Cintra, que pode contribuir para a discussão: “O subjuntivo é o modo exigido nas orações que dependem de verbos cujo sentido está ligado à ideia de ordem, de proibição, de desejo, de vontade, de súplica, de condição e outras correlatas. É o caso, por exemplo, dos verbos desejar, duvidar, implorar, lamentar, negar, ordenar, pedir, proibir, querer, rogar e suplicar”. Abraço 🙂

  2. A linguagem jornalística, embora tenha consigo necessidades impostas pela necessidade de clareza e concisão, não pode atropelar o vernáculo. A crase é fruto da ocorrência simultânea da preposição e do artigo. No primeiro exemplo continuo achando que ela caberia ao título” ..concorrer à vaga” seria o mais correto. Nos demais cabe discussão.

    1. Engraçado, Fernando. Eu até imaginaria alguma discussão sobre o segundo caso, pois a ópera pode ser o teatro de ópera e o uso do artigo ali me parece viável. No primeiro caso, é calara a possibilidade de emprego do artigo indefinido, não?

    2. No caso da existência ou não do fenômeno de crase a que Fernando Araújo se reportou, o que tenho a dizer é que Thaís Nicoleti está completamente certa. O substantivo “vaga” foi usado de forma vaga e indeterminada na frase em questão. Se a palavra se encontra sintaticamente indeterminada, não se pode supor, ali, a existência do artigo definido “a”, mas apenas a preposição “a”, admitida obrigatoriamente conforme o exige a regência do verbo “concorrer”

  3. Minha cara Thaís, o que você escreveu pode ser resumido em uma frase simples: NINGUÉM SABE PORTUGUÊS. Sempre fui bom aluno em redação, mas sempre duvidei dos “mestres” da gramática portuguesa. A própria definição clássica “última flor do Lácio, INCULTA e bela” define tudo. O melhor é aprender as regras de grafia e acentuação, e ter noções básicas de sintaxe. O resto é pura controvérsia.

  4. Acho que no caso da “vaga” do Oscar caberia o artigo definido “a” (à vaga para concorrer, que seria apenas uma) e aí se usaria a crase ou também caberia o artigo indefinido “uma” (uma vaga entre os diversos filmes ou diversas premiações); no caso da “ópera”, é, como dito, uma sessão cultural qualquer, já que a ênfase da matéria era mostrar que duas celebridades, apesar de serem adversárias políticas, podem e são amigas uma da outra.

  5. Muito bom o artigo sobre a falta de artigo e, consequentemente, de crase. Não havia visto a coisa ainda sob este prisma.

    Mas, pode me esclarecer uma coisa no texto, por favor? Bem no final está escrito “(..)não haja situações, mesmo no título, em que o artigo é necessário e não pode ser suprimido.”. Por que “é necessário” e “não pode ser” e não “seja necessário” e “não possa ser”, respectivamente?

    Obrigado,
    Aristóteles

  6. Oi, Thaís! Adoro seus textos e suas explicações!

    Já tirei uma dúvida aqui com você uma vez e, se não for pedir demais, gostaria muito que você falasse sobre o uso de “aplicar” (no sentido de “to apply” = candidatar-se/inscrever-se) e “submissão” (no sentido de “submission” = artigo científico enviado a um periódico ou agência de tradução, por exemplo).

    Acho que soa estranho e não encontro esse sentido nos dicionários, mas esse uso está cada vez mais comum no meio acadêmico. Ele é possível?

    Abraços! 🙂
    Alice

      1. Sei que ando em falta com os leitores do blog. Estive atolada em outros trabalhos, coisa que emendei com uma viagem. Estou trabalhando em novas seções para o blog e prometo voltar com força total, se Deus quiser. Obrigada 🙂

Deixe uma resposta