Acentuação e concordância intrigam leitor

Nosso leitor Elisio Neves, com toda a razão, ficou intrigado com os textos de duas fotos, que gentilmente enviou ao blog. Na primeira delas, o que está em jogo é a acentuação gráfica; na segunda, um interessante caso de concordância verbal.  final o leitor quer saber

O olho atento a todas as manifestações da língua é uma ótima maneira de estudar. Na internet, não faltam pessoas que publicam fotos de erros gramaticais em tabuletas e cartazes com a intenção de fazer piada. Aqui vamos usar o material enviado pelo leitor para discutir a língua.

 

 

 

Vejamos a primeira delas:

LAMA SÊCA OU LAMA SECA?
LAMA SÊCA OU LAMA SECA?

 

A esta altura ainda há quem grafe “sêca”, assim, com acento?

Elísio nos lembra que a palavra “seca”, sendo uma paroxítona terminada em “a”, não poderia ter acento. De fato, é isso mesmo. Se as oxítonas terminadas em “a”, “e”, “o”, “em” e “ens” recebem acento, as paroxítonas que têm essa mesma terminação não o recebem.  É por isso que sofá, balé, quiproquó, vintém e parabéns têm acento, mas seca, balde, carro, homem e itens não o têm.

Nesse caso específico, porém, é possível que a pessoa que assim grafou a palavra ainda guarde na memória a época em que o termo tinha acento diferencial (distinguia-se “sêca”, substantivo, de “seca”, forma do verbo “secar”), antes da reforma ortográfica de 1971.

Nessa época, também se distinguia “côco” (a fruta) de “coco” /ó/ (bactéria). O acento desapareceu há 45 anos, mas ainda dá o ar da graça nas barraquinhas e carrinhos de vendedores de água de coco.

CARRINHO DE COCO

Há quem tente justificar essa tendência pelo fato de a palavra ser formada de duas sílabas iguais, mas há outros casos que se enquadrariam nesse tipo de percepção e que nem por isso fizeram aparecer acentos inúteis. Ninguém acentua “baba”, que aparece no doce “baba de moça”, “meme”, o neologismo do mundo das redes sociais, ou “Momo”, o rei do Carnaval, não é mesmo?

Outros dizem que o acento evita confusão com “cocô” (!). Essa palavrinha, sim, recebe o acento, já que é uma oxítona, certo?

No nosso país, existe certo apego pela grafia das palavras, como se elas fossem indissociáveis do nome em si. No caso dos nomes próprios, isso é muito visível, pois as pessoas podem decidir se querem escrever Carlos ou Karlos, Luiz ou Luís, sem considerar as normas de ortografia. Até os topônimos ficam imunes às regras da ortografia. Basta observar os sites das prefeituras Brasil afora ou adentro.

A segunda questão apresentada por Elisio Neves diz respeito à concordância verbal da frase que se lê no cartaz abaixo:

CONCORDÂNCIA CORRETA

CONCORDÂNCIA CORRETA

Ele pergunta se estaria incorreta a concordância verbal nesse cartaz, uma vez que o verbo está no singular (“causa”) e o sujeito é composto.

Se o sujeito fosse mesmo composto, a frase estaria incorreta. O que temos, entretanto, é um sujeito oracional, que equivale a um sujeito simples. O que causa inundação nos dias de chuva é “jogar lixo e entulho”. O núcleo desse sujeito é a ação de “jogar”, um verbo. É por isso que dizemos que o sujeito é oracional. A oração “jogar lixo e entulho” funciona como sujeito de “causar”. “Lixo” e “entulho” são núcleos do objeto direto de “jogar” e fazem parte do sujeito oracional. Por esse motivo, não há erro no cartaz acima.

Se você quiser enviar uma questão ou material para ser comentado no blog, entre em contato pelo e-mail thaisncamargo@uol.com.br.

Comentários

  1. Não pude ler o texto da matéria sobre concordância e acentuação. Deve ser formidável. De toda sorte acho inútil se preocupar. É que a nossa língua não é tão importante para a imprensa, já que a gente vê grosserias enormes, e para o governo que não está nem aí. Gostaria que fosse lançada um campanha “salvem nossa língua” …

    1. Carlos, a primeira e a terceira estão de acordo com a tradição gramatical. A segunda parece estar consagrada no português do Brasil, em que as pessoas “sentem” a partícula átona como se fosse tônica. Não sei se me fiz entender. Abraço 🙂

  2. No antigo ginásio quando comecei a aprender inglês eu fiquei maravilhado porque não existem acentos gráficos, os verbos flexionam de formas inteligentes e acredito que nos últimos 300 anos houve raríssimas reformas ortográficas… Já no português não posso falar o mesmo, pois, em “toda” havia acento circunflexo diferencial em relação a “tóda” que segundo uma professorinha me informara ser um pássaro. Em aproximadamente 60 anos creio que já sobrevivi a duas reformas ortográficas sendo a última, mais pitoresca, pois no Brasil foi sancionado por um semi alfabetizado bem conhecido e a terra mãe, Portugal, ainda não utiliza o acordo lusófono. Quais seriam as reais necessidades de constantes alterações das regras da língua? Eu só imagino que é para vender novas edições de velhos livros.

    1. Sr. Tetsuo, o Acordo está vigente em Portugal. Estive lá recentemente e pude verificar que os livros didáticos estão ensinando as novas regras. O inglês é outra língua, com algumas facilidades e também com dificuldades. Quanto ao Acordo Ortográfico, as pessoas que o propuseram, tanto as do Brasil como as de Portugal, não são semialfabetizadas. Muito pelo contrário, são profundos conhecedores da língua portuguesa. É muito normal que as pessoas não gostem de mudanças na ortografia, pois têm de reaprender as regras depois de tanto tempo. Desse ponto de vista, qualquer mudança é ruim. Tenho tentado mostrar que o Acordo, ainda que não tenha solucionado todos os problemas da ortografia (não da língua), avançou no sentido da simplificação, o que é bom. Abraços 🙂

      1. Bem, no meu modo de ver, de todas as coisas que poderiam ser mudadas no Brasil, a última seria a ortografia. Nos últimos cem anos já tivemos nada mais nada menos que cinco ortografias oficiais. O pretenso benefício da “simplificação”, como alegado no tocante à última modificação ortográfica, sempre será infinitamente menor que o prejuízo causado às pessoas mais velhas ou já alfabetizadas, que terão de aprender novamente aquilo que já sabiam, desperdiçando tempo e energia que poderiam ser melhor aplicados no aprendizado de algo realmente novo. Mas respeitar os mais velhos não parece ser prioridade no Brasil… Nos anos da Revolução Francesa, mudaram-se muitíssimas coisas naquele país, de reis que perderam a cabeça até à maneira de falar, porém, em meio a tantas mudanças, ninguém pensou em modificar a ortografia. Já por aqui, em não se achando nada melhor para mudar, mudemos a ortografia…

    2. Acrescente-se o fato da aproximação entre as formas escritas de Portugal e do Brasil, graças ao AO.
      Discordo do fato de que os verbos em inglês se flexionem “de forma inteligente”. Os verbos em português herdaram características sintéticas do latim. Isso não tem a ver com formas mais ou menos “inteligentes”.

  3. Boa tarde Professora . Sobre concordância , a frase na crônica” Resultado de Pesquisa ” de Machado de Assis ( 08-07-1.885) : ” A questão era saber o que é honra ” , está correta ? A dúvida está em ” era ” e ” é ” .

    1. Não vejo nenhum problema, Antônio. A forma “é” indica, no contexto, a definição de algo (o que é honra; honra é isto), daí o presente doindicativo; a forma “era”, no passado, está ligada ao tempo do narrador, que estava relatando um fato. Não sei se entendi a sua preocupação, mas me pareceu que estranhou os tempos verbais. Era isso?

      1. Bom dia Professora . Parece-me confusa a questão anterior ; ainda sobre concordância , mais uma dúvida : na frase ” Eu , se fosse gatuno , recolhia-me à casa , abria a mão de vício tão hediondo , e ia estudar hipnotismo . ” , pergunto : 1) é correto o acento indicador de crase ? ; 2) os verbos estão em concordância ? Obrigado .

        1. Antonio, seria preciso verificar o contexto para saber se ocorre crase antes de “casa”. Parece-me tratar-se de um texto de Machado de Assis, não? Também é necessário saber de qual edição foi extraído, enfim, saber se houve adulteração do original (na internet, essa passagem aparece ora com o “a” craseado, ora apenas com a preposição “a”. De resto, o bruxo do Cosme Velho continua sendo nosso mestre!! 🙂

          1. Bom dia Professora . A Senhora poderia ter sido minha professora . Sou apenas um humilde curioso em aprender não só língua portuguesa ; afinal , sou de 1.941 e gosto muito do seu Livro sobre vírgula . Sobre o assunto anterior , a Senhora tem razão , é de Machado de Assis e a crônica é HIPNOTISMO . Mas , o tempo verbal está correto ? Obrigado .

          2. Está, sim, sr. Antonio. Creio que o que lhe causa dúvida é o fato de o autor usar o pretérito imperfeito com valor de futuro do pretérito. A construção, que é corrente em Portugal, é, sim, considerada correta. Vale observar que a língua sofre transformações; alguns usos se modificam com o passar do tempo e com a região. Isso sem considerar que a linguagem literária tem suas idiossincrasias. Fico contente em saber que gostou do livro. Grande abraço 🙂

  4. Com todo respeito ao Senhor Tetsuo Shimura – 29/02/2016 4:03 pm , achei no mínimo indelicadeza tratar uma Professora de ” PROFESSORINHA ” , comportamento nada condizente com a educação do povo japonês ; até penso que o Senhor Tetsuo não estava no Brasil no dia 29-02-2.016 às 16h03 .

  5. Boa tarde , Professora Thaís . ” ‘ GRÁTIS ou GRATUITO ‘ sobre o quê foi a aula do Prof. Pasquale publicada na ‘ Folha de S.Paulo ‘ do dia 18-12-1.997 ; desde esse dia , até o do dia 17-03-2.016 , tenho todas as publicações ; são mais de dezessete anos ! é interessante ? ” Muitos erros no texto ? Grato .

  6. Bom dia , Professora . O texto encontra-se entre aspas . E a penas o registro do fato de que há mais de dezessete outubros leio as aulas do Professor Pasquale . As suas , há quase dez , acho . Saber se há erros no texto é satisfação pessoal . ” É isso . ” . Um abraço . Grato .

    1. Aquele “quê” acentuado não está correto. Melhor seria começar de outra forma: “… foi o tema da aula do prof X no dia X Desde então, coleciono todas as publicações dele. São mais de dezessete anos!

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