“Mal”, “mau” e “maldade”

Thaís Nicoleti

O nosso incansável Zé Simão é o autor do bordão “Brasileiro escreve tudo errado, mas todo mundo se entende”. É assim que ele costuma introduzir as piadas prontas que aparecem em tabuletas espalhadas pelo país. “Olha esse cartaz no isopor de um ambulante: “COUXINHAS e água”. Tirante o aspecto engraçado dessas grafias, da análise desses erros sempre se extrai algum ensinamento. Por que alguém escreveria “couxinha”, com “u”? É provável que venha de uma confusão entre coxa e colcha, palavras cuja pronúncia é parecida. O “l” que se apoia em vogal e a semivogal  “u” dos ditongos /w/tendem a ter a mesma pronúncia (polpa, poupa; mal, mau), o que acarreta erros de grafia.

COXÃOÉ por essas e por outras que há quem confunda “coxão” com “colchão”…

portugues na rua (1)O caso do par mal/mau, tantas vezes ensinado com o truque de estabelecer oposição com o par bem/bom, é dos que mais causam confusão. Ultimamente têm aparecido as grafias “maudade” e “maudoso”, que certamente muitos dos leitores já viram por aí. É bem possível que essas grafias (incorretas) estejam apoiadas nesse truque de memorização, tantas vezes repetido. As pessoas que assim escrevem pensam que, se dizemos “bondade” (não “bendade”) e “bondoso” (não “bendoso”), deveríamos escrever “maudade” e “maudoso”, afinal “bom” se opõe a “mau”, certo?

Nada disso. A palavra “maldade”vem do latim malitas, atis (ruindade, dano, prejuízo), portanto formou-se antes de chegar ao português. “Maldoso”, por sua vez, segundo o dicionário “Houaiss”, deriva de “maldade”, termo ao qual se acresceu o sufixo “-oso” (de abundância). Assim, “maldade + oso”, por haplologia, resulta em “maldoso”, com o mesmo “l” de “maldade”, que veio do latim.

HAPLOLOGIA

Esse é o nome que recebe a supressão, no corpo de uma palavra, de uma de duas sílabas iguais ou muito parecidas que sejam contíguas. É o que ocorre, por exemplo, com as palavras “tragicomédia” e “tragicômico”, resultantes de “trágico + comédia” e “trágico + cômico”. Note que a última sílaba da primeira palavra é igual à primeira da segunda palavra. Em vez de tragicocomédia ou tragicocômico, operamos naturalmente a eliminação da sílaba repetida, obtendo as formas “tragicomédia” e “tragicômico”.

Quem conhece um pouco de teoria musical, sabe o que é uma “semínima”, nota musical que tem a metade da duração de uma “mínima” (semi + mínima > *semimínima > semínima); “idolatria” também resulta desse processo: ídolo + latria > *idololatria > idolatria. Muito bem: “maldade + oso” resulta em “maldoso” (não em maldadoso).

MALDADE E MALDOSO

Escrevamos, portanto, maldade e maldoso com a letra “l”. Quanto a “mau” e “mal”, pronunciados de forma muito semelhante no Brasil, vale lembrar que “mau” é adjetivo, portanto caracteriza substantivos, e “mal”, grosso modo, é advérbio, portanto modifica verbos. MALDADEVejamos um caso que leva muita gente à confusão em matéria aparentemente tão simples: mau funcionamento e funcionar mal. “Funcionamento” é substantivo, portanto pode ser “bom” ou “mau” (o bom ou o mau funcionamento das instituições), enquanto “funcionar” é verbo, portanto pode ser modificado por um advérbio (funcionar bem ou funcionar mal). É semelhante o caso de “mau humor” e “mal-humorado”, que se opõem a “bom humor” e “bem-humorado”.

MAL

A palavra “mal”, além de ser um advérbio de modo, é um substantivo (o mal) e uma conjunção subordinativa temporal, que indica o momento imediatamente posterior a uma ação (Mal chegou, foi encaminhado à sala secreta).

O HÍFEN

Segundo as regras de ortografia, o advérbio “mal” é preso por meio de hífen a palavras iniciadas por vogais (mal-entendido, mal-estar), por “h” (mal-humorado) e por “l” (mal-limpo). Nos demais casos, ocorre justaposição (malfeito, malbaratar, malcomportado, maldizer, malversação etc.).

 

Comentários

  1. Cara Thaís, como sempre, ótimas dicas. Mas tenho uma dúvida sobre algo que se lê com frequência por aí. Por exemplo, “A Olimpíada terá início esta semana” ou “(…) ocorrerá ainda este mês”. Não seria ‘n’esta semana, ou ‘n’este mês? Obrigado!

    1. Kátia, esse é um caso interessante. A grafia oficial da palavra é essa mesma que você usou (maloclusão). Trata-se provavelmente de adaptação do inglês “malocclusion”. Note que esse caso é semelhante ao de “malformação” (via inglês ou francês), que concorre com “má-formação”. “Oclusão” é substantivo, portanto, em português, não se juntaria ao advérbio “mal” (seria “má-oclusão”, como “má-formação”, se a palavra tivesse sido formada no português). Creio que seja esse o motivo de ter sido oficializada a grafia “maloclusão”. Abraços 🙂

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