O último Enem

Muito se comentaram algumas questões da prova de linguagens do último Enem – menos por sua qualidade pedagógica que por um suposto viés ideológico, hoje alvo das diatribes da equipe que vai integrar o futuro governo do país, à frente da qual se posiciona o próprio presidente eleito, que chamou para si a tarefa de inspecionar as próximas provas antes de sua aplicação.

Ainda que se possa incluir a declaração no seu já extenso rol de bravatas, sempre mais propícias a animar a torcida do que a motivar algum tipo de discussão, vamos aqui tomar a segunda via e tentar compreender o espírito da prova.

A crítica dos que consideram ter havido “ideologização” da prova recai sobre a escolha de alguns textos que serviram de base para questões de interpretação e de emprego amplo da língua, em suas mais variadas situações e funções. Em consonância com os parâmetros curriculares e mesmo com a base comum curricular, o exame nem de longe lembra as antigas provas de português, cuja maior exigência era que se decorassem conjugações verbais e listas de coletivos ou de superlativos absolutos eruditos, entre outros desafios mnemônicos. Não à toa, trata-se de uma prova de linguagens.

Muito bem. Havia na prova de linguagens cartazes de campanhas publicitárias, textos poéticos, fotogramas, fotos de esculturas, uma adaptação de Guimarães Rosa para a linguagem de quadrinhos, excertos de crônicas e de textos jornalísticos, uma tirinha, um resumo de tese acadêmica, um texto sobre teatro, um sobre cinema, outro sobre rede social (Twitter), bem como um trecho do Hino Nacional Brasileiro. Também havia Graciliano Ramos, Machado de Assis, Guimarães Rosa (não adaptado), Manoel de Barros, Ivan Ângelo, Marques Rebelo, Torquato Neto e outros autores.

Como se vê, a prova buscou apresentar uma variada gama de gêneros textuais, corroborando a ideia de que a realidade é mediada por linguagens, cuja compreensão é fator de cidadania.

O que causou celeuma, no entanto, foi a escolha de alguns textos em razão dos temas abordados. É inegável que se buscou tratar de questões atuais, presentes em matérias jornalísticas e em discussões nas redes sociais, o que leva o estudante a ter um envolvimento real, não meramente escolar, com elas.

Havia esporte, ética e valores, violência contra a mulher, ciência, empoderamento feminino, alimentação, saúde, preconceito racial dissimulado (na estética) ou ostensivo (nas redes sociais), educação, universo LGBT, mas também havia a internet e o uso da tecnologia (aplicativo de descrição de filmes para deficientes visuais, “caçador de plágio”), entre outros.

É bom que se diga que os textos tinham mesmo algo de provocadores, no mais salutar sentido do termo. Estavam ali para provocar reflexão, pois é exatamente assim que se constrói o conhecimento. Afinal, por que a realidade deveria ser escamoteada da prova? Espera-se que um jovem, ao término do ensino médio, tenha consciência do mundo em que está inserido e que seja capaz de fazer reflexões, de participar do debate público como cidadão. Ou não?

Jovens de 16 anos já podem ser eleitores, portanto convém que leiam jornais, que se mantenham bem informados e que sejam capazes de refletir sobre o que leem. Na prova, naturalmente, não se cobrava dos estudantes nenhum tipo de posicionamento sobre as questões; as perguntas eram estritamente ligadas ao funcionamento das linguagens. O problema, então, seria apresentar a eles textos que estão ao alcance de todos na internet, como se fosse possível (ou desejável) ocultar dos jovens a realidade, da qual eles mesmos são parte.

Em suma, o espírito da prova, que já chamaram de “complicada”, é, na verdade, muito simples: valoriza-se a reflexão.

Havia muitas questões interessantes no exame, mas as críticas recaíram com inusitada ênfase sobre um texto jornalístico que tratava do “pajubá”, uma gíria usada pelos gays, chamada pelo autor da reportagem de “dialeto” (seria antes um “socioleto” ou “dialeto social”, mas não era esse o foco da questão).

No texto reproduzido na prova, um advogado usuário do referido socioleto explicava ao repórter o significado de alguns termos e dizia que, obviamente, não empregava aquele vocabulário em uma audiência, mas que usava algumas daquelas palavras no ambiente de trabalho, com os colegas, porque as pessoas já conhecem muitas delas, uma vez que existe até um “dicionário de pajubá” (o livro “Aurélia: a Dicionária da Língua Afiada”, de Angelo Vip e Fred Libi, uma compilação desse vocabulário).

O texto-base mostrava que o fato de haver um “dicionário de pajubá” dava ao usuário a percepção de oficialidade, de modo que a gíria estaria, dessa forma, ganhando respeitabilidade, alcançando o status de dialeto, “caracterizando-se como elemento do patrimônio linguístico”.  Era uma questão de linguagem, de interpretação de texto, nada além disso. Quem censura a simples menção aos gays, no mínimo, quer tapar o sol com a peneira. Vai ter de censurar a internet e até mesmo a realidade, se isso for possível.

Um exame do alcance e do porte do Enem tende a influenciar o processo educacional como um todo. Esperamos que seja mantido seu espírito indutor de reflexão sobre a realidade, amparado no respeito aos direitos humanos. Perpetuar preconceitos, de quaisquer tipos, é segregar o outro, excluí-lo do convívio e das oportunidades, coisa que nenhuma escola pode admitir, sob pena de deixar de ser escola para ser clube ou igreja.

 

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